"Poderíamos aqui meditar sobre como seria saudável também para a nossa sociedade atual se num dia as famílias permanecessem juntas, tornassem o lar como casa e como realização da comunhão no repouso de Deus" (Papa Bento XVI, Citação do livro Jesus de Nazaré, Trad. José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ, São Paulo: Ed. Planeta, 2007, p. 106)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A vida familiar, caminho de santidade



Artigo de D. Francisco Gil Hellín publicado em Romana, n. 20 (1995)
Ao enfrentar o tema da santidade dos esposos, da santidade na vida familiar, ou da santidade na vida conjugal, vem à mente, necessariamente, o princípio configurador de qualquer família, que é o que deve ser santificado: o pacto de aliança conjugal entre os esposos. «A vocação universal à santidade dirige-se também aos cônjuges e aos pais cristãos; para eles foi especificada pelo sacramento celebrado e traduzida nas realidades da existência conjugal e familiar» [1].

Com efeito, não se pode falar de santidade cristã na vida familiar sem viver segundo o Espírito de Cristo a realidade que a constitui e as exigências que traz consigo. Por outras palavras. Não se pode construir a santidade dos membros da família – em primeiro lugar, a dos esposos – sem viver a verdade contida no facto de ser família e, portanto, no pacto ou aliança em que se fundamenta.

As tarefas essenciais que configuram a vida familiar estão já presentes no pacto conjugal. Os elementos primordiais de tal aliança são as coordenadas fundamentais da vida familiar. A vocação cristã exige viver segundo o Espírito de Cristo esta realidade natural inerente à Criação, configurada para os cristãos pelo Mistério Pascal. «O início da plenitude dos tempos (cfr. Gal 4, 4), o momento escolhido por Deus para manifestar plenamente o seu amor aos homens, entregando-nos o seu próprio Filho (…) realiza-se no meio das circunstâncias mais normais e correntes: uma mulher que dá à luz, uma família, uma casa. A omnipotência divina, o esplendor de Deus passam através das coisas humanas, unem-se às coisas humanas» [2].

Pode-se falar, portanto, de um materialismo cristão [3] que vive, no espírito do dom pascal, a realidade concreta da comunhão entre o homem e a mulher, saída das mãos de Deus Criador. Opondo-se a todo o tipo de espiritualismo, a santidade cristã de quantos foram chamados aos matrimónio requer, sobretudo, viver a realidade de ser «dois, numa só carne» (Gn 2, 24). Isto certamente não num sentido redutor mas, sim, conforme a toda a riqueza que implica esta expressão bíblica no âmbito da comunhão interpessoal.

Nisto consiste a tarefa fundamental desta vocação cristã, da qual S. Josemaria Escrivá foi pioneiro com a sua pregação [4] nos anos trinta. É um modo específico de viver esse chamamento universal à santidade no meio do mundo, próprio dos fiéis leigos. Além da sua incansável pregação, S. Josemaria contribuiu para que na vida da Igreja se tornasse realidade este chamamento a santificar-se no matrimónio e na família por meio de tantos milhares de casais que tentam encarná-lo nas suas próprias vidas, respondendo assim à própria vocação de filhos de Deus no Opus Dei. A maioria dos membros do Opus Dei, como declarava o seu Fundador, «vivem no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais são parte da vocação divina» [5].


1. Os deveres fundamentais da vida conjugal

Os deveres primordiais e essenciais da vida familiar estão determinados, dizíamos, pela própria essência do matrimónio sobre a qual assenta a família. A família não pode surgir sem se referir à entrega conjugal do homem e da mulher; tão pouco esta poderia existir à margem da intrínseca exigência de transmitir a vida, procurar e educar novas vidas.

Comunhão de pessoas e serviço à vida são os valores, essenciais e interdependentes, próprios da família. Como pode ver-se, são as próprias leis estruturais do matrimónio. O pacto matrimonial não existiria sem a comunhão conjugal, fruto da recíproca entrega, mas também sem a conatural orientação para transmitir a vida e educar os filhos.

Confirma-o a conexão existente entre a segunda e a terceira parte da Exortação apostólica Familiaris consortio. A parte específica e central do documento, a terceira, começa com o conhecido imperativo: «Família sê o que és!» [6]. Nela são desenvolvidos os dois aspectos constitutivos essenciais da missão da família: comunidade de pessoas (cap. I) e serviço à vida (cap. II). Precedentemente, a segunda parte, fundamento da terceira, relativa aos deveres familiares, está dedicada ao desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família.

O mandamento «Família, sê o que és!» tem as suas raízes no próprio ser do matrimónio, o qual se expressa em leis que estruturam a família. A riqueza contida na semente do matrimónio desenvolve-se com toda a sua força e potência na vida familiar, confirmando dia a dia a validade e o desígnio do germe inicial.

O valor da família fundamenta-se originariamente sobre a qualidade da recíproca entrega dos esposos. É o bem fundamental da célula básica da sociedade. A sociedade estrutura-se segundo vínculos humanos que situam as pessoas em relações de solidariedade, interdependência e serviço. Entre estes laços, o matrimónio possui uma prioridade constitutiva. Embora seja possível prescindir, em maior ou menor medida, de outras relações sociais, esta é substantiva e essencial, e condiciona a qualidade global de uma sociedade. Como recorda a Gaudium et spes, a união do homem e da mulher «constitui a primeira forma de comunhão de pessoas» [7].

O livro do Génesis expressa tal conceito de modo admirável, ao concluir a apresentação ao homem da mulher recém-criada afirmando: «Por isto o homem abandonará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne» (Gn 2, 24). Apesar de ser tão forte o nexo dos filhos com os seus pais sob o ponto de vista biológico – físico até, no que diz respeito à mãe –, de facto não é esta a união mais poderosa que existe na sociedade humana. Há outra que, partindo de seres diferentes pelo sexo e sangue, cria uma fusão natural tão forte que a sua desintegração é tão impressionante como o desmembramento de um corpo vivo [8]. A entrega conjugal une e funde os esposos de tal modo que chegam a ser «uma só carne».

«Quando o homem e a mulher, no matrimónio, se entregam e se recebem reciprocamente na unidade de "uma só carne", a lógica da entrega sincera entra nas suas vidas» [9]. A maturidade e a riqueza humana de um e outro dos componentes do par reflecte-se, necessariamente, no resultado desta «una caro».

Tudo isto determina que o ideal da família que se quer constituir deva influir desde a escolha recíproca dos noivos, e em todo o processo formativo do período preparatório. Com efeito, como diz João Paulo II na Carta às famílias, «a união conjugal – significada na expressão bíblica numa só carne – só pode ser compreendida e explicada plenamente recorrendo aos valores da "pessoa" e da "entrega"» [10]. Em tal processo de conhecimento e compenetração existem aspectos determinantes para a futura família. Sobre alguns deles não poderá transigir-se e será necessário reparar as lacunas de cada pretendente. Doutra forma, os problemas postergam-se mas não se resolvem, e logo voltarão a aparecer, com menores possibilidades de os solucionar adequadamente.

A doação mútua, portanto, colocada na base da «una caro» dos esposos, deve inspirar a recíproca relação em toda a vida conjugal, e deve penetrar e configurar toda a vida familiar. Por exemplo, as relações entre pais e filhos têm as suas raízes na doação ao cônjuge. A paternidade e a maternidade não só não lesam a mútua entrega dos cônjuges como a enriquecem, constituindo a sua optimização mais coerente.

Com efeito, a qualidade da doação recíproca potencia e torna idóneos para uma paternidade e maternidade generosas e cheias de conteúdo. A procriação e a educação dos filhos amadurecem e cultivam-se na genuína entrega esponsal. A tendência para excluir os filhos do horizonte e da doação de si mesmos, ou o limitá-los de maneira injustificada e imprópria, manifesta a imaturidade da dita entrega e a intensidade do egoísmo que a paralisa. Nessa mesma medida priva a entrega pessoal ao esposo ou à esposa da intrínseca referência entre si como ao pai ou à mãe dos próprios filhos.

Já que o doar-se dos esposos é conjugal, a transmissão da vida e aquilo que implica a formação destes repercute-se naturalmente na vida matrimonial. A íntima relação dos cônjuges, a descoberta da maternidade e da paternidade, o crescimento e a educação dos filhos traduzem, em experiência existencial, o bem previamente contido no matrimónio. A comunhão de pessoas, iniciada com uma referência directa entre esposo e esposa, cresce agora e dilata-se pela força de uma lei inscrita no seu ser, transmitindo e formando a «imagem de Deus» nos próprios descendentes.

O serviço à vida não é algo acrescentado à família, é antes um dos seus elementos constitutivos, já que o dom dos esposos tem como fim, pela sua própria estrutura natural, o cuidado da vida. Quando esta força orientadora se desordena e perverte, o próprio egoísmo conjugal corrompe e, nalgumas ocasiões, desnaturaliza a doação mútua dos esposos.

A mentalidade anticonceptiva, mesmo que não alcance a exclusão absoluta dos filhos, prejudica a qualidade da entrega conjugal em muitas famílias. Muitas desventuras conjugais, que terminam perante um juiz tentando obter a declaração de nulidade ou desembocam num divórcio civil, encontram a sua origem numa entrega que excluía a transmissão da vida ou, pelo menos, diferia-a sem motivos sérios. Alguns talvez chegassem a pensar que deste modo fortaleciam a sua total entrega conjugal. Mas a realidade é que nem a procriação prévia ao matrimónio favorece a qualidade da doação mútua, nem esta cresce nem melhora fechando-se ao serviço da vida. Em ambos os casos, se contradiz a entrega conjugal.

Tal entrega possui algumas leis intrínsecas, e cresce e desenvolve-se em conformidade com elas. Doutra forma, não obstante o que aparente à primeira vista, languidesce e pode chegar a morrer por causa dos contínuos actos que contradizem o seu dinamismo natural. «Toda a vida do matrimónio é entrega, mas isto faz-se singularmente evidente quando os esposos, oferecendo-se reciprocamente no amor, realizam aquele encontro que faz dos dois "uma só carne" (Gn 2, 25)» [11].


2. O amor conjugal, alma da vida familiar

O amor conjugal anima e vivifica a vida familiar. Este dinamismo coerente, que faz viver os esposos na alegria da mútua doação, conforma todos os laços familiares com o alegre espírito da entrega. Por isso o amor conjugal faz que as relações entre os pais e os filhos estejam animadas pelo espírito de entrega mútua dos esposos, o qual se estende e difunde a todos os membros da família. A solidez ou fragilidade de tal entrega, manifestada consciente ou inconscientemente na vida quotidiana, indica o grau de consistência de uma família como grupo social.

O amor conjugal não é um dinamismo cego, com manifestações autónomas, mas pelo contrário vivifica a estrutura essencial do matrimónio e, portanto da família. «Deus quis servir-se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da Igreja» [12]. A doação mútua dos esposos e o seu serviço à vida não são leis internas do matrimónio e da família independentes do amor conjugal. Sem este, não se teria levado a cabo a entrega recíproca e esta, sem tal impulso de amor, ficar-se-ia por um compromisso pactuado mas incapaz de cumprir-se por falta de força vital. A doação recíproca dos esposos nasceu com um acto de amor, mas tal doação não se reduz a esse acto de amor constitutivo. Mais ainda, a entrega conjugal reclama ser sustentada e vivificada continuamente pelo amor como seiva vital.

O amor conjugal, ao suscitar como princípio vital a entrega recíproca dos esposos, vivifica também todo o serviço à vida próprio do matrimónio e da vida conjugal. «Não há amor claro, franco e alegre no matrimónio, se não se vive a virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o ordena à fecundidade e à entrega» [13].

Embora a mútua entrega se ordene por si mesma ao serviço da vida, é difícil que tal serviço seja abundante se o amor for débil e vacilante. Um lar em que o serviço à vida – com tudo o que comporta a sua transmissão, a educação dos filhos e a comunicação entre os membros – é florescente, revela que um amor forte e poderoso vivifica toda a estrutura da mútua entrega. A força do amor conjugal torna operativo todo o ser do matrimónio, que é a própria comunhão dos esposos ao serviço da vida. Pelo contrário, sem o dinamismo do amor todo o organismo do matrimónio e da família fica anquilosado e paralisado.

A existência do matrimónio não depende do amor, no sentido de que o seu desaparecimento dissolva a consistência do matrimónio. É verdade que se faltar o amor no matrimónio, fica adormecida tanto a sua vida como a sua actividade. Do mesmo modo que a vida da semente a faz germinar e nos dá a conhecer a estrutura da planta, e depois, como seiva vivificante a faz crescer e produzir flores e frutos, assim o amor conjugal faz germinar o matrimónio como instituição com a sua própria estrutura específica. Por conseguinte, se o amor, como princípio vital, continua a alimentar tal estrutura, esta desenvolve-se numa comunhão de vida entre os cônjuges e cresce transmitindo a vida aos descendentes.

É a vida do matrimónio e da família, e não o seu ser constitutivo, o que está implicado directamente na presença ou na ausência do amor conjugal, ou do amor paterno e materno pelos filhos. Sem dúvida que a instituição matrimonial sem amor conjugal é como um cadáver, o qual apesar de possuir toda a estrutura física de um ser humano, nem por isto é um ser vivo. A estrutura do matrimónio e da família tem necessidade do amor como do seu espírito e da sua vida; um espírito que pode sempre ressurgir, superando possíveis crises conjugais, ainda que tivesse adormecido ou aparentemente se tivesse perdido. Este amor é a resposta permanente, actual e viva, à exigência de entrega total que está na base do matrimónio. O amor conjugal, por sua vez, expressa-se tornando-se evidente mediante a estrutura, mas esta não pode ser modificada conforme a vontade dos cônjuges. O amor conjugal pode deste modo crescer e desenvolver-se até à plenitude da sua perfeição.

A vida íntima conjugal é uma manifestação específica da doação recíproca entre os esposos e o modo próprio em que a «una caro» dos esposos demonstra a sua conatural ordenação à transmissão da vida. Como pode ver-se, as próprias leis da estrutura do matrimónio e da família – entrega dos cônjuges e serviço à vida – constituem as coordenadas estruturais do acto conjugal. São dois aspectos que a Encíclica Humanae vitae afirma como significados essenciais e inseparáveis: unitivo e procriador.

No entanto, estes aspectos essenciais, que compõem o ser do acto conjugal, devem ser vivificados pelo amor. Pelo qual, como recorda a Constituição pastoral Gaudium et spes ao falar da moralidade conjugal, é necessário recorrer a critérios objectivos que mantêm, num contexto de verdadeiro amor, o sentido íntegro da mútua entrega e da procriação humana [14]. Com palavras do Fundador do Opus Dei: «as relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos» [15].

São, portanto, dois os critérios objectivos da moralidade conjugal, indicados pelos Padres conciliares, que foram explicitamente concretizados por Paulo VI na resposta à questão dos contraceptivos. Estes critérios unitivo e procriador da vida conjugal, radicados no próprio ser do matrimónio, ajudam a entender e diferenciar os aspectos da vida matrimonial e familiar.

Tais critérios tornam incompatível a anti-concepção, qualquer que seja a sua forma, com a santidade na vida conjugal. Do mesmo modo se excluem radicalmente todo o tipo de procriação artificial, seja heteróloga ou homóloga. Com efeito, enquanto que qualquer forma de anti-concepção destrói a orientação natural da entrega conjugal à transmissão da vida, a procriação artificial, também a homóloga, substitui e, portanto, elimina desta acção a própria doação conjugal. Nem no caso de um acto anti-conceptivo se pode falar de verdadeiro acto conjugal, por estar privado voluntariamente de um dos seus aspectos essenciais; nem no caso da fecundação artificial a vida é fruto da recíproca entrega dos esposos.

A santidade da vida matrimonial conduz os esposos a viver o acto próprio e específico dos cônjuges com o mesmo amor que os levou à entrega matrimonial. No dito acto, «o homem e a mulher estão chamados a ratificar de maneira responsável a recíproca entrega que fizeram de si mesmos com a aliança matrimonial» [16]. Mais ainda, a comunhão específica, mediante a qual chegam a ser «uma só carne» pode expressar e aperfeiçoar de maneira singular aquele amor conjugal que deu origem ao matrimónio [17]. Fomentar o exercício da intimidade conjugal, privando-a positivamente da potencialidade procriadora, com o pretexto de não pôr em perigo a fidelidade conjugal, é buscar a solução de possíveis males com remédios paliativos que, além de não resolver os problemas, os acentuam e agravam.

A santidade da vida íntima conjugal assume a mesma condição dos esposos e da sua união íntima na carne, sabendo respeitar, nas leis intrínsecas da relação física, o mistério transcendente das pessoas como colaboradoras do Deus da vida. Santificar também a recíproca entrega física prova e expressa, neste acto de amor, até que ponto a vida de relação dos esposos está impregnada de entrega e de abertura aos filhos.


3. Realidades humanas vividas segundo o Espírito de Cristo

Estes deveres conaturais ao matrimónio e à família convertem-se em obras de santidade para os esposos, os quais foram fortalecidos pelo sacramento do matrimónio. «O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e através dele. Para isso, os cônjuges têm uma graça especial que o sacramento instituído por Jesus Cristo confere» [18].

O mistério da graça da união de Cristo com a Igreja, do qual participam agora, acrescenta uma capacidade peculiar de testemunhar e plasmar através dos deveres próprios de todos os esposos, a presença do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja na história dos homens [19].

O sacramento do matrimónio, instituído por Cristo, dizia S. Josemaria Escrivá, é «sinal sagrado que santifica, acção de Jesus que invade a alma dos que se casam e os convida a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num andar divino pela terra» [20].

Esta transformação da vida conjugal e familiar por Cristo é obra do seu Espírito, que actua em primeiro lugar pela caridade. A vida dos esposos e pais cristãos e dos outros membros da família, revela o mistério do amor de Deus entre os homens, na medida em que as suas relações familiares e sociais estão impregnadas das virtudes teologais: a fé, a esperança, a caridade.

Tudo aquilo que expressa a relação de entrega recíproca dos esposos cristãos encontra-se sob a acção da graça. Por isso, na medida em que cada um deles se apercebe desta realidade, assumindo-a de modo consciente com a docilidade que exige a acção do Espírito Santo nas suas almas, cresce e participa mais abundantemente da vida de Deus como esposos e pais. A união vital existente entre a relação com Deus e a entrega conjugal ao esposo ou à esposa começa a ser uma realidade sólida. Esta mesma entrega conjugal especifica a entrega própria a cada um dos outros membros da família.

O amor de Deus e o amor do cônjuge percorrem um mesmo caminho que manifesta, numa linguagem humana compreensível a qualquer pessoa, os tesouros insondáveis do mistério da Encarnação. Mas, ao mesmo tempo, é o amor de Deus, forte como a morte [21], o que purifica, configura e eleva todas as expressões humanas do amor e da entrega entre os esposos para que sejam instrumentos que manifestam a doação de Cristo à Igreja.

A espiritualidade conjugal não se constitui a partir do exterior com a multiplicação dos actos de piedade, com a simples imitação de comportamentos exemplares. A piedade e a imitação das virtudes sem dúvida alimentam a santidade dos esposos na medida em que os conduz a viver mais plenamente o sentido sacramental da sua união. «Os casados estão chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união: cometeriam, por isso, um grave erro. se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar» [22].

A espiritualidade conjugal cristã tem o seu próprio fundamento no mistério da entrega fecunda de Cristo à sua Igreja, da qual os esposos cristãos participam mediante o sacramento do matrimónio. Esta participação constitui um princípio dinâmico que, operando por meio das virtudes da fé, da esperança e da caridade, converte o próprio lar numa célula fundamental e vivificante do Reino de Deus em Cristo: a igreja doméstica.

Quando na família se vive em coerência com este mistério participado, os filhos nascem como o fruto concreto da entrega dos esposos: expressões da carne, fruto do espírito. Como a fidelidade, também o serviço à vida, próprio da entrega conjugal, vive-se não na agitação e desassossego da carne, mas com a força unificadora do espírito.

O serviço à vida, quer seja a procriação, o crescimento e a alimentação, a educação ou a formação, não pode senão reforçar o dom mútuo dos esposos. Um equilíbrio precário no serviço à vida, que não traz consigo o crescimento na comunhão dos esposos, manifesta-se numa entrega já débil ou doente a partir do momento do compromisso matrimonial, ou que se que se quebrou e debilitou por causa de uma vida incoerente. Não existe uma entrega conjugal que não comporte uma maior exigência de serviço à vida, assim como não se dá um radical empenho de transmitir a vida e servi-la que não leve a concretizar e melhorar a entrega dos esposos.

O trabalho, a convivência, a relação quotidiana nas actividades mais transcendentes ou mais ordinárias, constituem a trama do exercício das virtudes que impregnam toda a vida doméstica. A constância em levar por diante as próprias ocupações, a serenidade e afabilidade no trato com os outros, a sinceridade para reconhecer os próprios erros, a capacidade de compreender e perdoar, a fortaleza para corrigir os defeitos pessoais, a paciência consigo próprio e com os outros, o optimismo para ajudar a superar-se… são virtudes que, apoiando-se na fé, esperança e caridade, traduzem na vida dos filhos de Deus o quotidiano desenrolar da vida familiar.

Assim se expressa S. Josemaria: «A vida familiar, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar» [23].


4. União conjugal generosa e fecunda

A santidade matrimonial requer, portanto, viver no espírito do Mistério Pascal – Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo –, uma manifestação específica da vida dos esposos: a relação conjugal íntima. Esta possui indubitavelmente uma forte influência e repercussão sobre a santidade dos outros componentes da família, enquanto que aparece como a pedra angular do arco da coerência de vida própria do estado esponsal.

Certamente qualquer comunicação de palavras e outras acções entre os cônjuges pode expressar a sua recíproca entrega e a positiva acção de serviço à vida: um sorriso, o olhar, uma amabilidade, uma palavra, um gesto, um serviço… No entanto, a união íntima da carne como expressão da comunhão das suas pessoas é singular e específica.

Esta união actualiza no tempo a verdade da aliança conjugal estipulada com a doação recíproca das pessoas do homem e da mulher. Por conseguinte tal dom requer o seu cumprimento em plenitude como união única, exclusiva e para sempre. Não admite que lhe falte nenhuma das propriedades naturais do pacto matrimonial. Só a suspeita disto impediria que houvesse verdadeira comunicação íntima, despojando-a da sua condição específica de comunhão de pessoas.

A santidade esponsal implica, portanto, viver a verdade desta união com generosidade e a coerência da entrega que tal comunhão actualiza. A expressão da recíproca entrega conjugal, além de exigir a coerência, promove-a, enquanto constitui um chamamento a viver as exigências que actualiza. A sinceridade da entrega quotidiana prepara e dispõe a viver esta expressão específica de verdadeiro dom recíproco, e este, por sua vez, pode ajudar a expressá-la nos variados e diversos aspectos da vida.

Portanto, a santidade cristã dos esposos requer viver segundo o Espírito a realidade plena de tal entrega. O mistério da entrega de Cristo à Igreja – até à morte, e morte de cruz –, no qual os esposos cristãos participam em virtude do matrimónio, deve impregnar esta comunhão das pessoas com a lei da entrega, mais que da posse. Esta união é sempre fecunda e, geralmente, manifesta-se também com os frutos da procriação. A geração humana exige a comunhão dos progenitores numa só carne como manifestação da comunhão existente entre as suas pessoas. Por isso, os aspectos da união e da procriação são elementos inseparáveis de um mesmo valor moral. Por este motivo, para viver uma procriação responsável, necessária à santidade dos esposos, é pressuposto indispensável a responsabilidade na mencionada comunhão.

As faculdades superiores do homem não possuem um domínio directo e absoluto sobre a procriação, como também sobre as outras funções biológicas do homem. Delas dependem certamente os actos da relação íntima, necessários para a transmissão da vida. Assim, a conexão entre os actos conjugais e a transmissão da vida têm as suas próprias leis, não submetidas ao domínio da vontade. Portanto, falar de procriação responsável implica directa e propriamente a responsabilidade na comunicação íntima conjugal. Só indirecta e mediatamente pode ser relativa a faculdade de transmitir a vida.

A responsabilidade exerce-se, ou deixa de exercer-se, nos actos que dependem da vontade; do qual decorre que os efeitos consequentes são responsáveis ou irresponsáveis. Não se pode propor como responsável a vontade de não procriar, sem que esta mesma vontade determine uma atitude coerente nas relações conjugais. Em conclusão, não se pode ser irresponsável nas relações íntimas e pretender ser responsável na transmissão da vida.

Isto implica para a santidade conjugal, que o Espírito de Cristo penetre nas relações íntimas dos esposos ,assumindo consciente e responsavelmente a própria índole de transmissores da vida. Não é suficiente por parte dos esposos o respeito da vida que tais actos podem eventualmente suscitar; a santidade matrimonial implica uma disposição positiva a respeito da vida que tal união, voluntária e consciente, pode procriar.

Somente quando existem sérios motivos que tornariam irresponsável suscitar uma nova procriação, se justifica o recurso a relações naturalmente infecundas. Tal continência periódica, em si mesma lícita, requererá no entanto que os esposos assumam de modo responsável a eventualidade de que a relação possa ser fecunda. Esta natural incerteza relativa aos actos conjugais e à sua fecundidade, exigirá dos esposos, nalgumas circunstâncias, uma abstenção proporcionada com a gravidade dos motivos que desaconselham a transmissão da vida, e mesmo a absoluta abstinência, quando a possível procriação, que continua a ser voluntária in causa, pudesse comprometer um bem tão grande como a vida da esposa.

Como se adverte com clareza, as exigências da vida conjugal não se podem viver sem um grau de amor e desprendimento de si mesmo tais que transcendem toda a força humana e reclamam o auxílio divino. Com efeito, não existe na ordem natural um acto de maior amor e desprendimento que o contido e implicado na doação matrimonial. Tudo isto leva o Santo Padre a perguntar-se: «Acaso se pode imaginar o amor humano sem o Esposo e sem o amor com que Ele amou primeiro até ao extremo?» A tal pergunta, responde assim: «Só se participam neste amor e neste "grande mistério", os esposos podem amar "até ao extremo"; ou se tornam participantes dele, ou então não conhecem verdadeiramente o que é o amor e a radicalidade das suas exigências» [24].


5. Exercício das virtudes cristãs
Para os esposos cristãos, o matrimónio e, concretamente, os aspectos da entrega conjugal e da transmissão da vida constituem o âmbito específico da própria santidade, quer dizer, o lugar próprio do exercício de todas as virtudes, principalmente as teologais. «Para santificar cada jornada, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs, as teologais em primeiro lugar e, depois, todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, a laboriosidade, a alegria…» [25]. A ajudá-los-á a descobrir o mistério de que participam, em pormenores, exigências, penas e alegrias da vida ordinária. «Com efeito – sublinha a Familiaris consortio –, só na fé os esposos podem descobrir e admirar com gozosa gratidão, a que dignidade quis Deus elevar o matrimónio e a família, constituindo-os como sinal e lugar da aliança de amor entre Deus e os homens, entre Jesus Cristo e a sua esposa a Igreja» [26].

Esta mesma fé fará perceber aos esposos na sua vida, nos momentos e circunstâncias de dor e sofrimento, o mistério da entrega redentora de Cristo pelos homens. «Dentro e através dos acontecimentos, os problemas, as dificuldades, os factos da existência de todos os dias, Deus vem a eles revelando e propondo as "exigências" concretas da sua participação no amor de Cristo pela Igreja» [27]. A própria fé cristã projectará luz abundante sobre a responsável entrega íntima como expressão concreta do amor de Cristo por cada um deles através do outro, também no gozo sensível e espiritual que advém da dita entrega. Será assim um farol resplandecente para os esposos cristãos na tarefa da procriação e da educação de novas vidas, enquanto participantes do poder criador de Deus e da acção redentora de Cristo na Igreja.

Cumprir com plenitude o projecto de doação pessoal implícito no matrimónio, e da entrega dos pais aos filhos através da procriação e educação, é um dever que supera as forças meramente naturais. A virtude da esperança confere aos cristãos a certeza de que, Aquele que os chamou à vocação de esposos e pais, não deixará de os assistir com a sua graça para tornar fecunda e eficaz a sua resposta às exigências concretas da própria vocação.

A fé, que ilumina o mistério da cruz fecunda, do qual participam, leva-os a viver, na esperança, a coerência desejada e nem sempre realizada em todas e cada uma das manifestações quotidianas. A certeza de que os últimos tempos começaram, mas que ainda não estão consumados, fá-los desejar e suplicar a graça, e agradecer com frutos maduros, sempre desejosos de ser revestidos da presença do Esposo que confirme definitivamente neles a fidelidade à Esposa.

As virtudes teologais e, especialmente, a caridade, aperfeiçoam o ser humano nas suas exigências naturais. Deste modo o homem, que não pode «encontrar-se plenamente a si mesmo a não ser no sincero dom de si» [28], recebe no amor participado de Cristo a força primordial para a própria realização. «O amor faz com que o homem se realize mediante a entrega sincera de si mesmo. Amar significa dar e receber o que não se pode comprar nem vender, mas somente oferecer livre e reciprocamente» [29]. A caridade participada, no caso dos esposos cristãos, é o amor esponsal, raiz última do Mistério Pascal: a união de Cristo com a Igreja. «Assim, em cada família autenticamente cristã – recorda-nos S. Josemaria Escrivá – reproduz-se de algum modo o mistério da Igreja, escolhida por Deus e enviada como guia do mundo» [30].

A família é incorporada à Igreja respeitando, mais ainda, confirmando e elevando a acção da Igreja, o que constituía missão própria de tal comunidade natural. «Se a família cristão é uma comunidade cujos vínculos foram renovados por Cristo mediante a fé e os sacramentos, a sua participação na missão da Igreja deve realizar-se conforme uma modalidade comunitária: isto é, juntamente os cônjuges como casal, os filhos e os pais enquanto família, devem viver o próprio serviço à Igreja e ao mundo» [31].

Daqui que a missão da família na Igreja não seja a soma das missões dos membros que a compõem. A Exortação apostólica Familiaris consortio esclarece que «a família cristã está chamada a tomar parte viva e responsável na missão da Igreja de modo próprio e original, isto é, pondo-se ela mesma ao serviço da Igreja e da sociedade no seu ser e na sua acção, enquanto íntima comunidade de vida e de amor» [32].

O matrimónio e a família, graças ao seu conteúdo fundamental do dom de si ao cônjuge e aos filhos, são em si mesmos expressão primária e protótipo de todo o vínculo social [33]. Quando além disso é vivificada pelo amor de Cristo, a família converte-se em igreja doméstica, célula básica do Reino de Cristo entre os homens; sinal participado da comunhão e amor fecundo entre Cristo e a Igreja [34]. A família «como "igreja doméstica", é a esposa de Cristo. A Igreja universal, e dentro dela cada Igreja particular, manifesta-se mais imediatamente como esposa de Cristo na "igreja doméstica" e no amor que se vive nela: o amor conjugal, amor paterno e materno, amor de uma comunidade de pessoas e de gerações» [35].


6. Sacerdócio comum: a oferenda da própria existência
«Pelo Baptismo, fomos todos constituídos sacerdotes da nossa própria existência, para oferecer vítimas espirituais que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo (1 Pe 2, 5) para realizar cada uma das nossas acções em espírito de obediência à vontade de Deus, perpetuando assim a missão do Deus-Homem» [36].

Todo o baptizado deve viver o próprio sacerdócio convertendo a sua existência num culto agradável a Deus Pai. «E como do sacramento derivam para os cônjuges o dom e a obrigação de viver quotidianamente a santificação recebida, assim nesse mesmo sacramento se fundamentam a graça e o dever de transformar toda a sua vida num contínuo sacrifício espiritual» [37].

Existe portanto uma característica específica do sacerdócio comum dos esposos cristãos: o modo peculiar de fazer da sua própria existência uma oferta espiritual. O sacramento do matrimónio transformou em unidade social aquela identificação com Cristo previamente adquirida por cada um no Baptismo. Portanto, a oferenda da própria existência tem para eles uma dimensão específica: a unidade conjugal. O sacerdócio comum dos esposos adquire uma dimensão familiar. De agora em diante cada um deles não poderá viver a oferenda da sua existência a não ser como esposo e esposa e, portanto, como pai ou mãe, pelo menos potencialmente.

Por outras palavras, os cônjuges cristãos não podem viver a oferenda das próprias vidas a não ser no exercício da missão de esposos e pais, própria da sua identidade dentro do Povo de Deus. As virtudes humanas e cristãs fá-los-ão viver a vontade concreta de Deus em todas as actividades e deveres próprios, e descobrir neles a resposta de entrega como oferta grata a Deus por Jesus Cristo.

Toda a vida é, por conseguinte, exercício deste sacerdócio, e toda a vida estará cheia pela entrega ao cônjuge e aos filhos. Este é o seu modo peculiar e eficaz de construir a cidade dos homens e a cidade de Deus. Qualquer outra actividade ou ocupação, trabalho, descanso, vida de piedade e de relação social, encontra-se em estreita unidade com a ocupação fundamental que Deus estabeleceu como centro das suas vidas.

A Eucaristia adquire para os esposos, nesta perspectiva da oferenda da própria existência, não só a função de raiz da que nasce o próprio sacerdócio, mas também de consumação do mistério da entrega fecunda da qual participam. O mistério eucarístico potencia toda a sua entrega de esposos, e deles mesmos aos filhos, com o dinamismo de totalidade da entrega de Cristo ao Pai. A Eucaristia, para aqueles que, graças à sua união, são sinal e representação da entrega de Cristo à Igreja, leva a uma especial urgência de realizar no mundo – hoje e agora – o amor de Deus aos homens revelado na morte de Cristo. «Com efeito, todas as suas obras –afirma a propósito dos leigos a Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II –, as suas orações e iniciativas apostólicas, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso espiritual e corporal, se se cumprem no Espírito, e inclusivamente as agruras da vida se são suportadas com paciência, convertem-se em sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cfr. 1 Pe 2, 5), os quais são piedosamente oferecidos na celebração da Eucaristia juntamente com a oblação do Corpo de Nosso Senhor» [38].

Revelar, com a peculiaridade dos esposos e pais cristãos, o mistério do amor é contribuir para a sua glorificação. Dar glória a Deus, como fim próprio do homem nesta terra, está intimamente ligado à santidade e à perfeição, bem como à própria felicidade humana das famílias. «Mas não esqueçam que o segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Está em encontrar a alegria íntima que dá a chegada ao lar; está no convívio carinhoso com os filhos; no trabalho de todos os dias, em que colabora toda a família; no bom humor perante as dificuldades, que é preciso encarar com desportivismo» [39].

No caso dos esposos, a santidade e, portanto, a glória de Deus, constrói-se secundando na vida quotidiana, de modo consciente e voluntário, os deveres centrais que especificam a vocação como entrega conjugal ao serviço da vida.

Qualquer outra orientação dirigida a dar glória a Deus que prescindisse destas coordenadas básicas da santidade conjugal, seria um desvio para os esposos. O modo próprio e específico da santidade dos esposos consiste em reproduzir na própria vida o mistério do qual participam em virtude do sacramento: um mistério de entrega fecunda. Este é o caminho da sua perfeição cristã e da glória de Deus reflectida nas suas vidas. Testemunhos do amor de Cristo na Cruz: entrega fecunda.

Com palavras de S. Paulo, o Papa suplica pela santidade dos esposos e das famílias: «Dobro os meus joelhos diante do Pai do qual toma nome toda a paternidade e maternidade "para que vos conceda … que sejais fortalecidos pela acção do seu Espírito no homem interior" (Ef 3, 16)» [40].




Notas:

[1] João Paulo II, Exort. Apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 56.

[2] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 22.

[3] «O sentido cristão autêntico – que professa a ressurreição de toda a carne – sempre combateu, como é lógico, a desencarnação, sem receio de ser julgado materialista» (Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 115).

[4] Cfr. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 27; Temas Actuais do Cristianismo, nn. 45, 91, 93.

[5] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 91.

[6] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1987, n. 17.

[7] Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 12.

[8] Cfr. P. Adnès, El matrimonio, Herder, Barcelona (1972, 2ª ed.), p. 28.

[9] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 11.

[10] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 12.

[11] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 12.

[12] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 24.

[13] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 25

[14] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 91.

[15] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 25.

[16] João Paulo II. Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1944, n. 12.

[17] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 51.

[18] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 91,

[19] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes. N. 48.

[20] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[21] Cfr. Cant 8, 6.

[22] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[23] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[24] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 19.

[25] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[26] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 51.

[27] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 51.

[28] Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 24

[29] João Paulo II, Carta às famílias gratissimam sane, 2-II-1944, n. 11.

[30] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 30.

[31] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 50.

[32] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 50.

[33] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 12.

[34] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 11.

[35] João Paulo II,Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 19.

[36] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 96.

[37] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 56.

[38] Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 34.

[39] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo. n. 91.

[40] João Paulo II, Carta às famílias gratissimam sane, 2-II-1994, n. 23.

Artigo de D. Francisco Gil Hellín publicado em Romana, n. 20 (1995)

domingo, 11 de setembro de 2011

A defesa da família e da vida nos discursos do Papa Bento XVI no Brasil


 
A defesa da família e da vida nos discursos do Papa Bento XVI no Brasil
Como o Papa Bento XVI apresentou a questão em sua viagem ao Brasil
 

Merece destaque nos discursos do Papa, em sua visita ao Brasil, a defesa da família e da vida.

"É verdade que os tempos de hoje são difíceis para a Igreja e muitos dos seus filhos estão atribulados. A vida social está atravessando momentos de confusão desnorteadora. Ataca-se impunemente a santidade do matrimônio e da família, iniciando-se por fazer concessões diante de pressões capazes de incidir negativamente sobre os processos legislativos; justificam-se alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual; atenta-se contra a dignidade do ser humano; alastra-se a ferida do divórcio e das uniões livres... Como não sentir tristeza em nossa alma? Mas tende confiança: a Igreja é santa e incorruptível (cf. Ef 5,27). Dizia Santo Agostinho: "Vacilará a Igreja se vacila o seu fundamento, mas poderá talvez Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá intacta até o fim dos tempos" (Enarrationes in Psalmos, 103,2,5; PL, 37, 1353.) (Discurso aos bispos do Brasil, 11/mai).

A família, "patrimônio da humanidade", constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos. Ela foi e é a escola de fé, palestra de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e é acolhida generosa e responsavelmente. Todavia, na atualidade sofre situações adversas provocadas pelo secularismo e pelo relativismo ético, pelos diversos fluxos migratórios internos e externos, pela pobreza, pela instabilidade social e pelas legislações civis contrárias ao matrimônio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o aborto, ameaçam o futuro dos povos. (Discurso inaugural do V CELAM, 13/mai).

Os povos latino-americanos e caribenhos têm direito a uma vida plena, própria dos filhos de Deus, com condições mais humanas: livres das ameaças da fome e de todas as formas de violência. Para estes povos, os seus Pastores têm que fomentar uma cultura da vida que permita, como dizia o meu Predecessor Paulo VI, "passar da miséria à posse do necessário, à aquisição da cultura, à cooperação no bem comum... até chegar ao reconhecimento, por parte do homem, dos valores supremos e de Deus, que é a origem e o termo deles" (cf. Populorum progressio, 21).
Neste contexto, é-me grato recordar a Encíclica "Populorum progressio", cujo 40º aniversário recordamos no corrente ano. Este documento pontifício põe em evidência o fato de que o desenvolvimento deve ser integral, isto é, orientado rumo à promoção de todo o homem e de todos os homens (cf. n. 14), e convida todos a eliminar as graves desigualdades sociais e as enormes diferenças no acesso aos bens. Estes povos aspiram, sobretudo, à plenitude de vida que Cristo nos trouxe: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10, 10). Com esta vida divina desenvolve-se também plenamente a existência humana, nas suas dimensões pessoal, familiar, social e cultural. (Discurso inaugural do V CELAM, 13/mai).

A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente; neste sentido, não deixará de insistir no empenho que deverá ser dado para assegurar o fortalecimento da família - como célula mãe da sociedade; da juventude - cuja formação constitui um fator decisivo para o futuro de uma Nação - e, finalmente, mas não por último, defendendo e promovendo os valores subjacentes em todos os segmentos da sociedade, especialmente dos povos indígenas. (Discurso de boas vindas, 9/mai)

Nossa busca pela vida vem desde o papa João Paulo 2º. Ele fez disso um ponto central de seu pontificado, fez uma encíclica que avançava já nessa mensagem de que a vida é um dom, e não uma ameaça. Nessas situações [legalização do aborto no México] há um certo egoísmo e, de outra parte, é uma questão de valor e beleza da vida. É nisso que está o futuro. Sobretudo a vida é bela. Isso não é uma questão da igreja, é um dom em si. Mesmo em condições difíceis, é sempre um dom recriar o reconhecimento desta beleza. Sobre o futuro, claro, pairam tantas ameaças, mas a felicidade é que Deus é sempre mais forte e presente no teatro da história, para que possamos dar, com confiança, a vida a um novo ser humano. A fé garante a beleza da vida. Podemos resistir a esse egoísmo e a esse medo, que está em algumas coisas dessas legislações. (Entrevista coletiva dada no avião durante a viagem ao Brasil, 9/mai – TEXTO NÃO OFICIAL)

Sei que a alma deste Povo, bem como de toda a América Latina, conserva valores radicalmente cristãos que jamais serão cancelados. E estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana; fará também da promoção da pessoa humana o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados. (Discurso de boas vindas, 9/mai)

 
 

 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

ALGUNS UTENSÍLIOS PARA O CASAMENTO



Maridos e mulheres, sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo" (Ef 5, 21-33).
Assistindo a um casamento, um Bispo recomendava aos noivos que levassem para a nova residência três coisas que pertenciam às famílias tradicionais: tesoura, agulha e linha. Mas não levá-las apenas materialmente, afinal, é difícil uma casa sem tesoura, agulha e linha. Estes três objetos devem adquirir um sentido simbólico: cortar o que separa e costurar o que une na vida matrimonial.
Num estilo de vida que privilegia o interesse pessoal, o narcisismo e descarta a compreensão e o perdão, é sempre mais difícil a convivência do homem e da mulher. É verdadeiro milagre dois jovens iniciarem uma vida a dois e vencerem os desafios que essa comporta. Afinal, estamos no mundo do bem-estar, onde os conflitos não são resolvidos, mas anestesiados: Prozac para depressão, Lexotan para ansiedade, Dormonid para ansiedade, Antak para gastrites e úlceras do stress, e mais ginástica, natação, spa, massagem, ioga etc, tudo para não olhar de frente os problemas. (Evidente que tudo isso pode ser necessário, pois há doenças provindas de nosso organismo debilitado).
O egoísmo e o narcisismo (olhar apenas o próprio interesse) inventam fugas aparentemente modernas: casamento com casas separadas, casamento de experiência, casamento múltiplo (o homem aceita que a esposa tenha casos e vice-versa), swing (troca de casais), o amor-livre, deixando de lado um compromisso estável, e muito mais. Tudo isso para que se evite o desafio do amor que é inseparável da doação, do diálogo, da fidelidade, perdão, paciência, auto-ajuda.
Quando se sabe o que se quer – o homem responsabilizar-se pela felicidade da mulher e a mulher se consagrar à realização do homem – buscam-se caminhos próprios e não se medem os sacrifícios. Quando se pensa apenas em si, o casamento é realmente inútil e prejudicial: não foi feito para egoístas.
Voltemos aos nossos "instrumentos". A tesoura serve para cortar tudo o que impede a boa convivência: olhar apenas os defeitos, fixar-se nos erros, nas exigências exageradas ou impossíveis, recordar problemas do passado, alterar a voz para vencer "no grito", fazer-se de vítima, de sofredor(a). Cortar as dependências familiares (minha mãe era diferente, meu pai resolvia assim, minha mãezinha cozinhava melhor), aparar as diferenças: há coisas do passado que devemos conservar e muitos supérfluos de que devemos nos livrar. Ninguém pode viver sempre dizendo "eu aprendi desse jeito".
A agulha e a linha devem servir para costurar os corações, fazer pontos que impeçam de se rasgar o tecido do amor, cerzir as costuras enfraquecidas por desavenças, experiências dolorosas. Ajudam como a agulha e a linha do médico, necessárias após uma cirurgia. Certamente a agulha, quando espeta, provoca sangramento, dor, mas dá pontos que garantem a união do tecido cortado para extirpar o tumor. Se a tesoura corta o que separa, a linha e a agulha costuram tudo o que une, favorece a união e a fidelidade matrimonial, formando o tecido de um só coração e uma só alma.
Pe. José Artulino Besen


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Fruto da JMJ: um casal se converte e desiste de abortar


A vida que a JMJ salvou
Jovens peregrinos convencem um casal a não abortar

MADRI, sexta-feira, 26 de agosto de 2011 (ZENIT.org) –

A 26ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ) conseguiu, entre seus numerosos frutos, salvar uma vida humana, já que uns peregrinos que foram a Madri, para o evento, convenceram um casal a não abortar.
No último dia 19 de agosto, um grupo de jovens pró-vida irlandeses começou a rezar na frente da igreja de San Martín de Tours, onde há uma importante clínica de abortos, segundo informou a ZENIT o Centro Internacional para a Defesa da Vida Humana (CIDEVIDA).
Um casal chegou até o lugar com a intenção de abortar e os jovens foram ao seu encontro, explicando-lhes as razões pelas quais não deveriam fazer isso.
Uma voluntária de CIDEVIDA, organização que tinha uma exposição instalada no claustro dessa igreja madrilena cêntrica, uniu-se ao grupo e colocou o casal em contato com a fundação de apoio, assessoria e ajuda à mulher grávida, Red Madre.
Esta rede se comprometeu a prestar apoio para o nascimento do filho do casal, que consolidou assim sua decisão de não abortar.
Para o secretário de CIDEVIDA, Juan José Panizo, "o presente desta vida é uma alegria para todos". "Obrigado, Bento, por ter vindo", expressou, elogiando também a ação dos voluntários da entidade pró-vida e dos peregrinos irlandeses, que, depois desse encontro, voltaram a rezar de joelhos no mesmo lugar.
Um grupo de pessoas preocupadas pelas consequências da nova lei do aborto na Espanha colocou em marcha o CIDEVIDA em 2009, para informar sobre a realidade do aborto e promover alternativas para ajudar as mulheres com problemas diante da gravidez.
Entre outras atividades, a entidade mantém, na Villa de Tordesillas, na província de Valladolid, uma exposição permanente sobre o aborto, um centro de ajuda às mulheres grávidas e de atenção à síndrome pós-aborto, bem como um centro documental.

Fonte: Zent.org

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Abortos Ocultos: "contraceptivos orais combinados"

O cônjuge como um caminho para Deus

Nossa salvação está unida ao outro e vem por meio do outro

"O encontro de duas pessoas em Deus – por intermédio da oração ou da vivência religiosa compartilhada – é uma das formas mais ricas e profundas de encontrar-se, já que estamos diante de Deus, com melhor que cada um possui. Diante do Senhor nos desprendemos de tudo o que normalmente dificulta o encontro e vamos assumindo com mais objetividade a atitude compreensiva, benigna e compassiva do amor de Deus.

A união de duas pessoas pelo sacramento do matrimônio abre a eles uma nova possibilidade de amor sobrenatural: o cônjuge como um caminho para Deus, como lugar de encontro com Deus. No momento solene das bodas, Cristo diz a cada um: Eu, desde agora, vou te amar especialmente através do cônjuge, vou convertê-lo em santuário do meu encontro contigo. E com isso me deixa o grande desafio de buscar ao Senhor no coração do outro onde desde agora está me esperando, de descobrir o rosto de Cristo no rosto do meu cônjuge, de acolher seu amor como transparente e reflexo do amor divino. Em contrapartida, eu devo ser Cristo para o outro, dar a ele o amor, a luz e a força que necessita para crescer e chegar até Deus. E assim cada um se aceita e se doa ao outro como lugar privilegiado de encontro com o Senhor.
Por isso, em todo matrimônio cristão está sempre Deus como terceiro, quem faz de ponte e laço de união entre os cônjuges. E precisamente quando Deus não ocupa esse lugar dentro do matrimônio, então há sempre lugar para outro terceiro, que destrói a aliança matrimonial.

O matrimônio é uma comunidade de salvação unida por um vínculo sobrenatural. O amor de Cristo e Maria selam nosso amor. Estamos unidos como a videira e os brotos. Nossa salvação está unida ao outro e vem por meio do outro. Minha santidade repercute no outro, meu pecado também.
Tão profunda é essa aliança [matrimonial] e esse conhecimento mútuo que os esposos deveriam chegar a ser diretores espirituais um do outro. Tanto se conhecem que podem ajudar ao outro em seu caminho de santidade. Essa aliança de amor se dá entre os esposos e dos esposos com Deus. Por isso é comunidade de salvação, de amor, vida e tarefas com Cristo e Maria.

Compartilhamos sua missão e junto com eles caminhamos para Deus Pai. Em caso que os contraentes humanos entrem em crise o terceiro os ampara. Cristo carrega com eles o matrimônio.

Depois de nossa consagração a Virgem ela também começa a ser uma aliada e nos ajuda no caminho. Ela também nos ampara.
O que dissemos sobre o matrimônio vale para todos os membros da família: pais, filhos, irmãos... Cada um é Cristo para os demais, reflexo do Senhor. Cada um é e há de ser, para o outro, um caminho para o Senhor, caminho privilegiado de amor a Ele.
Nisso encontramos o sentido da aliança matrimonial e o sentido da aliança familiar: Todos juntos, unidos e aliados com a Virgem Maria, caminhamos para Deus. Todos juntos, nos amando mutuamente como ao Senhor, nos consagramos a Maria e, mediante ela, nos entregamos para sempre a Deus.

Queridos irmãos, se nos deixamos educar e guiar pela Virgem Maria, então a aliança com ela é como uma grande escola de amor. Nela aprendemos a amar para percorrer os caminhos do amor divino e chegar ao coração do Pai. E é assim que se tornará realidade em nossa vida a aliança com Deus."
Autor: Padre Nicolás Schwizer - Movimento apostólico Shoenstatt

domingo, 21 de agosto de 2011

Dia dos Pais - Significado e orações


Os pais têm um papel importante na formação do caráter dos filhos
O mês de agosto é o Mês das Vocações. Dentro da vocação familiar, da feliz união entre um homem e uma mulher, nós celebramos a cada segundo domingo de agosto o Dia dos Pais. Equilibrando erros e acertos, os pais têm um papel importante na formação do caráter e no decorrer da vida dos filhos.

Os pais acompanham seu crescimento, seu desenvolvimento intelectual e se esforçam para dar aos filhos conforto, boa alimentação, educação de qualidade. E, em geral, procuram orientá-los para que possam enfrentar o mundo, com suas alegrias, com seus dissabores. Acompanham-nos em suas vitórias, em seus fracassos, em suas lutas.

É claro que há exceções, mas essas exceções só confirmam a regra porque pais que não se preocupam com seus filhos não estão no seu estado natural, normal. O mundo de hoje apresenta anomalias absurdas. Temos notícia de pais que torturam seus filhos, que os desrespeitam, que espancam ou matam a mãe na presença dos filhos. Mas isso não é o correto, o desejável, a razão pela qual Deus os fez pais.

A família – o Lar cristão – Igreja doméstica – Santuário da vida – é a célula básica da sociedade. Deus nos coloca numa família para que nela aprendamos a amar e, porque aprenderemos a amar sem medidas, Ele espera que extravasemos esse amor para a vizinhança, para o bairro, para toda a cidade, para o mundo.

Dentro da família, o pai é o apoio, o amparo, a proteção, tal como São José o foi na Sagrada Família. Precisamos de muitas orações pelos pais, para que eles tenham saúde, caráter, amor no coração e para que eles sejam amados e respeitados pelos seus filhos, que se espelharão neles [pais] para construir a própria vida.

E, mais importante do que tudo isso, que nossos pais sejam educadores de seus filhos na fé, transmissores da fé católica e deem testemunho de discípulos-missionários de Jesus Cristo.

Uma prece especial fazemos pelos pais e avôs que já nos precederam no convívio celeste da comunhão dos santos. Da mesma maneira, aos pais presentes, que Deus abençoe os pais de todo o mundo. Sendo eles abençoados, as famílias o serão e a humanidade poderá conhecer uma vida melhor.

 
Autor: Dom Eurico dos Santos Veloso - Arcebispo Emérito de Juiz de Fora(MG)


terça-feira, 9 de agosto de 2011

O discernimento vocacional dos Beatos Luis Martin e Zélia Guerin, pais de Santa Teresinha


"O Bom Deus me deu um pai e uma mãe mais dignos do Céu que da terra" 
(Santa Teresinha, Carta de 26.7.1897)

Segue um relato sobre o discernimento vocacional dos Beatos Luis Martin e Zélia Guerin, os pais de Santa Teresinha. São trechos retirados da obra "História de uma Família" do frei STÉPHANE JOSEPH PIAT, ofm. Esta narrativa mostra o período das dúvidas que sofreram na juventude até o casamento deles em julho de 1858:
"Foi no começo do outono de 1845 - sem que possamos determinar a data precisa do fato - que Luís Martin se decidiu a dar seguimento ao seu projeto de vida mais perfeita. Completara vinte e dois anos. Chegara para ele a hora de escolher entre o casamento e o serviço do altar. Optou pelo claustro.

Possuía uma sólida formação religiosa. O capitão Martin tinha-lhe ensinado a entregar-se a Deus sem reservas, numa doação total, à maneira de soldado, ou antes, de combatente. A comunhão, tão freqüente quanto o permitiam os costumes do tempo, apuraram-lhe a piedade. O contato com a fé bretã e alsaciana só podia fortificá-la. O temperamento de tendências contemplativas levava-o à conversação íntima, coração a coração, Com o Mestre interior que arrebata a alma, como presa Sua. E ele deixou-se arrebatar.

Para que lado havia de se dirigir? Contemporâneo do alvorecer do romantismo, iniciara-se Luís, precocemente, no culto da natureza. A majestade de um pôr do sol, os murmúrios da floresta, o marulhar das vagas, convidavam-no a um recolhimento que se assemelhava à contemplação. Este apaixonado de Chateaubriand e de Lamartine era, além disso, um cristão habilitado à leitura da Bíblia. Sensível às belezas da "terra carnal", depressa as ultrapassava, para cantar ao modo franciscano "o hino das criaturas". Gostaria de estabelecer o seu retiro num desses lugares grandiosos onde a própria paisagem eleva os olhares para o céu. Soubesse ele, além disto, de um Instituto onde a atividade impregnada de oração pudesse satisfazer o ardor cavalheiresco, que sentia palpitar dentro de si, o atrativo da aventura e o gosto do perigo ... e estava feita a escolha.

Seria guiado neste caminho pelo seu diretor espiritual ou por algum turista regressado de além-montes? Atuaria nele, irresistivelmente, a recordação da viagem realizada dois anos antes? O certo é que julgou encontrar no Eremitério do Grande S. Bernardo a realização plena do seu ideal. Lá no alto, na cadeia dos Alpes Peninos, a 2.472 metros de altitude, no cimo da garganta que separa o Valais Suíço do vale de Aosta, confiado aos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, fica a Hospedaria de Mont-Joux, ali erigido, há nove séculos, por S. Bernardo de Menthon. Depois de, lá no alto, no meio da sua paisagem fantástica, cantarem os louvores de Deus, os grupos de religiosos salvadores seguem, guiados pelo faro dos cães, através das geleiras, por frios rigorosos de vinte graus negativos a socorrer as vítimas de avalanches ou os viajantes perdidos na neve. Esta combinação de vida claustral, de oração poética e de caridade heróica não realizaria bem o sonho de Luís Martin?

O fato é que, em Setembro de 1845, segundo todas as probabilidades, toma o bordão de peregrino e, de Estrasburgo, onde sem dúvida pára, dirige-se, ora a pé ora em diligência, à fronteira da Suíça. O caminheiro de Deus extasiava-se diante de tantos esplendores semeados como que a mãos cheias pelo caminho. A sua alma agradecida encontrava em tudo um tal alimento que, por vezes, era obrigado a parar e a chorar de comoção e de alegria. Cansado do mundo, como Dante, mas sem ter conhecido a existência atormentada do grande Florentino, o que ele vinha mendigar à porta do Mosteiro era "a Paz".

O Prior recebeu benevolamente aquele jovem cujo olhar tinha um não sei quê de límpido e de exaltado, ao mesmo tempo. Interrogou-o a respeito dos motivos que inspiravam a sua resolução, a respeito da família, e a respeito dos seus antecedentes. Edificado quanto a este ponto, inquiriu acerca dos estudos e depressa verificou que o visitante não tinha percorrido o ciclo de formação clássica.

Luís Martin teria esperado talvez remediar ali mesmo essa deficiência? O certo é que ficou extremamente desconsolado quando o religioso lhe respondeu que o conhecimento do latim era indispensável para ser admitido entre os religiosos e o convidou a voltar para casa, para lá continuar o estudo das humanidades. Foi com a alma de exilado que Luís desceu o flanco da montanha. Até ao fim da vida, conservará no coração a saudade do Eremitério e a visão nostálgica da cela onde se vive "só com o Só ou com o Único necessário".

Naquela ocasião julgou tratar-se de um simples adiamento.

No regresso a Alençon confiou os seus desígnios ao Deão de São Leonardo, que aceitou o encargo de o orientar na sua realização. Os assentos das contas meticulosamente registradas, dia a dia, marcam desde 16 de Outubro de 1845 até aos princípios de Janeiro de 1847, compras freqüentes de manuais escolares e de autores latinos, gregos e franceses. Verifica-se igualmente a freqüência regular de um curso ao preço de um franco e meio cada lição, em casa de um certo senhor Wacquerie. Podem contar-se cento e vinte lições, com uma interrupção, registrada, como tudo o mais, com todo o cuidado, de 18 de Maio a 23 de Junho de 1846. As páginas relativas ao primeiro semestre de 1847 não fazem já qualquer alusão a honorários de professores ou a despesas de livros. Pelo contrário, a menção da troca de um dicionário latino-francês, leva-nos a crer que os estudos haviam sido postos de parte. Foi nesta época que a doença obrigou o jovem a dizer adeus aos seus queridos livros e a ocupar-se de trabalhos menos absorventes. No fato viu ele uma indicação providencial e resolveu voltar aos seus instrumentos de relojoaria.

De certo para completar a aprendizagem dirigiu-se então para a Capital. Tinha ali algumas relações de parentesco e de amizade: a avó, a Senhora Boureau-Nay, que contava setenta e quatro anos e vivia duma pensão paga pela família; o tio por afinidade, Luís Henrique de Lacauve, coronel reformado, que habitualmente residia em Versalhes e o filho deste, Henrique de Lacauve, aluno da Escola Militar, unido a Luís Martin por amizade realmente fraternal, e que partiria para a África a 14 de Dezembro de 1848.

A permanência em Paris, que parece ter durado dois ou três anos, foi a prova decisiva para a fé do nosso herói. O espírito voltairiano, que presidira ao advento da Monarquia de Julho, dominava ainda nos meios intelectuais, apesar da vigorosa contra-ofensiva de Lacordaire e de Montalembert. As classes dirigentes, obedecendo à palavra de ordem de Guizot: "Enriquecei", continuavam surdas aos rumores de revolta que subiam das massas populares.

Frederico Ozanam lançava em vão o seu grito de alarme para chamar a atenção da opinião pública sobre o perigo social e sobre a miséria espiritual e material do proletariado; será necessário a sangrenta agitação de Junho de 1848. Mas, entretanto, Paris não acredita no perigo e diverte-se.
Luís Martin vai entrar em contado com o perigo. Uns desconhecidos, explorando a sua natural generosidade, convidam-no a fazer parte de um clube filantrópico aparentemente dedicado a obras de caridade. Averigua mais a fundo o valor da identidade deles e descobre que, na realidade, trata-se duma sociedade secreta. A sua lealdade revolta-se. Só gosta da luz. As obras das trevas é que buscam as trevas. Rejeita resolutamente esses convites e salva a sua liberdade.
A distinção natural e o encanto da sua pessoa expõem-no a solicitações de outro gênero, que só a sua fé robusta ajudará a repelir. Mais tarde falará disso em confidência a sua esposa, que daí tirará partido para acautelar o irmão mais novo, que se encontrava então na capital a tirar o curso de medicina.
Adivinha-se a alegria com que Luís Martin se arrancou a tal meio para regressar ao ar sadio da Normandia. Encontrava-se em plena posse da sua arte. Apreciava nela a preocupação do pormenor, o sentido da exatidão, a delicadeza realçada pela nota artística. Ele, que contemplava extasiado a harmonia do mundo sideral em que se diverte o poder do "Divino Relojoeiro", manejava com igual ternura as peças minúsculas de uma mecânica de precisão. A sua consciência profissional tirava dai uma alegria entusiasta que o assemelhava, pelo gosto do trabalho acabado, aos briosos artífices da Idade Média.
Uma santa senhora de Alençon, Felicidade Baudouin, que tinha por ele grande consideração, ajudou-o a estabelecer-se nesta cidade. A 9 de Novembro de 1850 fez a aquisição de uma casa situada na ma da Ponte Nova, número 15, e aí instalou a sua oficina de relojoaria a que mais tarde anexou uma joalheria. Ficava na freguesia de S. Pedro, nas proximidades da ponte que transpõe o Sarthe, em direcão a Montsort. O bairro, um pouco afastado, só se animava em dias de mercado, e mesmo assim sem febre nem precipitações, pois que a cidade raras vezes perde o seu ar de tranquila dignidade. O prédio era vasto e possuía um iardinzinho. O Capitão Martin e sua esposa ali viveram com o filho.
Inaugurou então a existência laboriosa, metódica e quase monástica que devia levar perto de oito anos. De estatura elevada, aprumo de oficial, fisionomia simpática, fronte vasta e descoberta, tez clara, um belo rosto oval emoldurado de cabelos castanhos, nos olhos escuros uma chama suave e profunda, havia nele um misto de fidalgo e de místico que não deixava de impressionar. Uma rapariga muito rica, amiga da família, tinha pensado em casar com ele. Mas ele furtou-se à solicitação. Pretendia reservar a sua liberdade para Deus. A oficina transformara-se num retiro claustral onde prolongara interiormente o sonho tão cedo desfeito. O trabalho minucioso exige recolhimento e silêncio. Nada mais favorável à evasão para o Altíssimo.

Ao domingo a porta do estabelecimento mantinha-se obstinadamente fechada. Luís entregava-se com os seus aos exercícios de piedade. A maneira de distração juntava-se facilmente a um grupo de amigos pertencentes à burguesia de Alençon e a que chamavam familiarmente, devido ao nome de um dos dirigentes, o Círculo Vital-Rouet.

Encontravam-se num local da rua de Mans, muito perto da capela de Nossa Senhora do Loreto, de acordo com o Deão de S. Leonardo, o Padre Hurel; ele concorria com a sua nota pessoal de fé intransigente e de caridade comunicativa.

Certo dia em que, num salão, ou por leviandade ou por esnobismo, ou por infiltração de liberalismo de espírito, se entregavam a experiências de mesas falantes, a presença dele impediu que a sessão tomasse um rumo ordinário. Quando se apresentava o ensejo, afirmava que as manifestações espíritas, mesmo que não dependam sempre, necessariamente, de intervenção do demônio, oferecem-lhe todas, pelo atrativo mórbido do maravilhoso, ocasião de entrar em ação. A princípio rejeitou o convite e, depois de vivas instâncias, apenas consentiu em comparecer com a condição de assistir como mero espectador passivo. Esta atitude de desaprovação indispôs certas pessoas que, alegando o caráter inofensivo da experiência, insistiram para que se lhes juntasse. Ele recusou terminantemente e pôs-se a orar interiormente, para que a tentativa falhasse se o espírito mau lá estivesse metido. A mesa, nesse dia, manteve-se rebelde e os levianos acusaram "o santo homem" de desmancha-prazeres, ao passo que os mais sensatos tiraram do caso uma boa e oportuna lição.

Sem se furtar aos jogos de sociedade, no meio da qual a sua alegria franca e à sua perfeita urbanidade eram apreciadas por todos, Luís Martin preferia-lhes, contudo, os longos passeios. Como artista, saboreava as grandes caminhadas a pé. Dirigia-se para os arredores de Saint-Cénery, tão apreciados pelos pintores de fama, ou para o meio dos arvoredos magníficos da floresta de Perseigne. Ou então, adotando de preferência hábitos sedentários, instalava-se na margem duma lagoa ou duma ribeira abundante em peixe, e, pacientemente, lançava o anzol.

A pesca constituía o seu passatempo favorito. Conhecia-lhe todos os segredos. No isolamento misterioso dos bosques normandos, em frente das águas tranqüilas onde por vezes vogavam cisnes, o seu temperamento contemplativo expandia-se com delícia. Apreciava, como filho de Deus, os gorjeios e trinados das aves, orquestrados pelos ruídos do vento na folhagem. A tardinha arrancava-se à impressionante sinfonia agreste para levar às Clarissas de Alençon a abundante fritada, prova da sua habilidade. Na ocasião própria levava para casa algumas peças de caça, pois uma licença para isso prova-nos que ele gostava de caçadas.

Um dia quis arranjar uma espécie de vivenda solitária onde pudesse instalar os seus aparelhos de pesca, tratar a seu tempo do jardim, apesar de não ter muito gosto pela jardinagem, e, entregar-se com vagar ao prazer das leituras elevadas e à contemplação. Para isso, a 29 de Abril de 1857, adquiriu a pitoresca propriedade do Pavilhão, na rua dos Lavadoiros, no bairro da Sénatorerie, no extremo sul da cidade, junto do ponto onde as águas do Sarthe se ramificam em vários braços. Fica à beira do caminho, rodeada dum lindo pedaço de terra, e consta de uma torre hexagonal e dois andares aos quais dá acesso uma escada exterior que vai ter a um balcão do primeiro andar; depois interiormente há uma escada de madeira em caracol.

Penetremos no pequeno edifício. Mobiliário reduzido: umas poucas de cadeiras. uma mesa sobre a qual se vêem marcados com registros alguns livros de portada austera: a um canto linhas de pesca, uma rede, um cesto; nas paredes um crucifixo, imagens piedosas e máximas ali colocadas pelo próprio rapaz: Deus vê-me - A eternidade aproxima-se e nós não pensamos nisso – Bem-aventurados os que guardam a lei do Senhor - Deus me defenda dos Seus juízos!"
A casa não se assemelha nada a uma residência de rapaz solteiro. É, antes, o templo da austeridade. Uma senhora um pouco mundana, que um dia ali foi com a filha mais velha do senhor Martin, saiu precipitadamente: "Oh! Maria, até sinto arrepios nas costas!... Se fôssemos para o jardim!"

O solitário apenas tinha a companhia de uma cadela galga, que um dia, ao festejar a sua chegada, subiu até ao balcão e tanto pulou que caiu na rua e quebrou as patas.
O recinto à volta do Pavilhão era do mesmo jeito. Luís semeou ali algumas flores. Mais tarde plantará no centro uma nogueira, que crescerá junto do pinheiro. Ao fundo colocou a imagem de Nossa Senhora que lhe fora oferecida pela Senhora Baudouin. É uma cópia, não destituída de elegância, da obra executada em prata por Bouchardon, para a igreja de S. Sulpício, de Paris, e que desapareceu nos horrores da Revolução. Esta estátua, que tem 90 centímetros de altura (mas tão pesada que é capaz de carregar bem um homem robusto) representa a Imaculada envolvida em artísticas pinturas, de mãos estendidas como que a espalhar graças. A importância desta imagem vem-lhe do papel que ela desempenhou na vida da família Martin, porque, depois de ter presidido à cura miraculosa de Teresa, um dia figurará triunfante, sob a invocação de Virgem do Sorriso, sobre a urna que guardará as relíquias de santa Teresinha.

Por então - e é a única mágoa que dá à mãe - Luís não pensa de modo nenhum em formar família. O trabalho, a oração, as boas obras, as distrações sãs e as leituras sérias chegam para lhe encher bem a existência. Quem sabe se não conserva ainda no profundo da sua retina a imagem das geleiras e dos picos dos Alpes, onde a sua coragem temerária aspira a acudir aos sinistrados da montanha? Não conservará ele, com extremos cuidados, até ao fim da vida, a flor agreste colhida um dia no flanco do São Bernardo e que para ele simboliza tanta coisa?

Zélia Guérin passará por uma decepção do mesmo gênero. O seu coração prodigiosamente sensível poderia ter cedido prematuramente ao apelo das criaturas. A formação recebida no lar -, a vigilância um tanto desconfiada que a cercava e, ainda mais, o instinto duma natureza espontaneamente reta e piedosa, protegeram-na eficazmente. Foi para Deus que ela dirigiu toda a sua capacidade afetiva. Maria Luísa, a amiga confidente da sua alma, comunicava-lhe os sonhos de vocação religiosa suspensos, do momento, pela necessidade de ajudar a mãe no governo da casa. Zélia, mais livre que a irmã mais velha, quis ir antes dela. O temperamento levava-a a preferir a vida ativa; a ternura compassiva atraía-a para junto dos doentes e dos deserdados da sorte. Pretendeu, pois, o hábito das Irmãs de S. Vicente de Paulo. Foi para dar parte dessa intenção que ela se apresentou no Hospital de Alençon, acompanhada da mãe. Notar-se-iam algumas reticências nos lábios maternos? Pareceria demasiado precária a saúde da postulante? Ou, mais simplesmente, uma intuição sobrenatural faria conhecer à Superiora os verdadeiros desígnios de Deus sobre a jovem? O certo é que a entrevista não deu o resultado desejado. A Superiora, sem hesitar um momento, respondeu ao pedido de admissão que não era essa a vontade divina. Embora triste, Zélia não podia deixar de se curvar ante afirmação tão categórica. Daí em diante limitou-se a elevar ao céu esta súplica cheia de simplicidade: "Meu Deus. visto que não sou digna de ser vossa esposa, como é minha irmã, para cumprir a vossa santa vontade abraçarei o estado do matrimônio. Dai-me, então, eu vo-lo peço, muitos filhos e fazei que todos Vos sejam consagrados". Apesar destes desejos, ela sofrerá ainda por muito tempo a obsessão do claustro, e quantas vezes, no decurso da sua vida, não nos dará ela a impressão de trazer a cingir-lhe a fronte o touca do branco das Irmãs da Caridade, tanta era a sua dedicação ao serviço dos humildes.

Tornava-se necessário preparar o futuro. Os magros recursos do oficial reformado não podiam chegar para constituir o dote da filha e custear a educação do mais novo que, em vista de se destinar às profissões liberais, devia ir dentro em breve para o liceu. Zélia confiou à Santíssima Virgem esta incerteza do dia seguinte. A resposta chegou-lhe a 8 de Dezembro de 1851, sob a forma de uma voz interior que, durante um trabalho absorvente e que de nenhum modo favorecia a auto-sugestão, lhe disse de maneira muito distinta: "Dedica-te ao Ponto de Alençon". A moça viu nisto a ordem do céu e, sem demora, tratou de a executar. Já durante os seus anos de estudo aprendera os rudimentos da indústria que dava fama à cidade. Para aprender a arte a fundo, entrou para uma escola de rendeiras, onde se ensinavam, com método, os mil segredos da profissão.

Trata-se de uma arte das mais sutis. Napoleão ficou extasiado com ela e Maria Luísa ainda mais, quando a berlinda imperial levou destas rendas para Paris em 1811. Tudo foram admirações dessas operárias de mãos de fada.

O apadrinhamento histórico do famoso Ponto de Alençon caberia à Beata Margarida de Lorena. Esta antepassada de Henrique IV, nora do "Gentil Duque" que foi o companheiro de armas de Joana d'Arc, não se limitou a administrar o ducado durante vinte anos, com tal sensatez e condescendência que lhe deram o nome de "mãe de toda a caridade". Antes de acabar como Clarissa em Argentan, a 21 de Novembro de 1521, enriqueceu igrejas e mosteiros com bordados de mérito incalculável, feitos por ela com todo o carinho e que lhe dão direito a ser considerada legítima ascendente das nossas modernas rendeiras. Mas o patronato técnico das rendas pertence, incontestavelmente a Colbert, que, pelo ano de 1664, mandou vir de Veneza trinta operárias hábeis no manejo da agulha.

A renda faz-se às tiras de quinze a vinte centímetros, sobre um pergaminho, perfurado segundo o desenho a reproduzir, e forrado de tela. Emprega-se fio de linho da melhor qualidade e extremamente fino. Feito o desenho, a tira passa de mão em mão, conforme o número de pontos que o formam, que chegam a ser nove e cada um constitui uma especialidade. Feito isto, é preciso soltar cada tira, desfazer todos os pontos inúteis, reparar as inevitáveis rasga duras e finalmente proceder à junção das tiras, trabalho do mais delicado que há feito com agulhas quase imperceptíveis e com fios cada vez mais finos. A incrível variedade dos processos, a escala graduada dos "cheios" e dos "tons" fizeram do Ponto de Alençon o enfeite sem rival dos guarda-roupas reais.

Zélia Guérin não tardou em adestrar-se neste prodígio da arte feminina. Conservaram-se algumas "tiras" executadas por ela, que são puras maravilhas. Parece que saiu da escola antes de completar o tempo habitual. A sua natural beleza, a sua vivacidade de inteligência, o dom de simpatia que irradiava no mais alto grau, não podiam passar despercebidos. Quando notou, à sua volta, as amabilidades excessivas de um patrão, decidiu dar por terminada a experiência e estabelecer-se por conta própria, continuando, é claro, a aperfeiçoar a sua formação, freqüentando um outro dos numerosos cursos profissionais abertos na cidade.

Pelos fins de 1853 estabeleceu-se como "fabricante de Ponto de Alençon", segundo demonstram os seus documentos de identidade civil. Isto não significava a abertura de uma oficina. O Ponto é uma obra-prima coletiva, mas que não exige a simultaneidade do trabalho em grupo. Exige sim, em quem empreende esta indústria, iniciativa e diligência para recrutar as operárias, para receber a clientela, para distribuir as encomendas, para fornecer às operárias que trabalham nas suas casas o material necessário à execução da sua especialidade, para vigiar a passagem das tiras de uma para outra, para coordenar e corrigir o conjunto, para assegurar finalmente a colocação lucrativa. Alençon é o coração das rendas, mas à volta, nas proximidades, em Damigny, em Gandelain, em Roche-Mabile, desenham-se os graciosos arabescos, cuja magia contrasta com o ambiente rústico.

Zélia Guérin instalou o escritório na sala da frente na casa da família, sita na rua de S. Brás. As quintas-feiras permanecia ali à disposição das operárias, entregando, recebendo e regulando o trabalho. Em geral reservava para si a reparação do tule, remediava os estragos que se davam inevitavelmente no decorrer das múltiplas manipulações e, se era necessário, procedia ao invisível ajustamento das tiras, escolho e triunfo das mais hábeis.

Pode afirmar-se sem exagero que era exímia neste trabalho tão especializado que exige vista perspicaz, grande habilidade e gosto primoroso. Era com carinho que se entregava a tal tarefa, ela que dirá um dia numa carta: "O meu único gosto é estar sentada junto à janela a ajuntar o meu Ponto de Alençon". As peças saídas das suas mãos serão logo classificadas como das mais belas e vencidas por alto preço, assegurando, assim, o crédito e a prosperidade da casa.

A parte estritamente comercial interessava-a menos, o que explica decerto o fato de ter deixado de trabalhar por sua conta desde 1856 a 1863 e ter recebido trabalho da casa Pigache. Ao princípio, quando se tratou de arranjar clientela e houve necessidade de entrar em relações com os armazéns de Paris, a juventude de Zélia Guérin retraiu-se, foi a mais velha que, dominando a própria repugnância, se ofereceu para a substituir. Acompanhada pelo pai, Maria Luísa fez uma viagem de negócios a Paris. Os seus passos, coroados de êxito, garantiram o lançamento da empresa, mas apanhou por essa ocasião um resfriado que lhe ia sendo fatal.

A partir deste ano de 1853 os destinos das duas irmãs iam divergir sem nunca se alterar a amizade e a confiança que as unia. Maria Luísa ou, para lhe dar o nome familiar por que a tratavam na intimidade, Elisa, vai dirigir-se, com um esforço constante, para o claustro. Desde criança que afastou de si, com indomável energia, até a sombra do mal. O abuso deste argumento peremptório: "Isso é pecado" chegou a desenvolver nela uma delicadeza que roçava pelo medo e virá a degenerar em escrúpulos.

Foi pelo Apocalipse que aprendeu a ler. Quando ia com a mãe à Igreja julgava-se obrigada a percorrer o seu missal sem erguer os olhos e passava a Missa a reler muitas vezes as orações do Ordinário. Faltou à sua infância a livre expansão própria de uma educação onde dominasse o amor.

Dois anos que passou com as Religiosas da Adoração Perpétua abriram-lhe os horizontes da vida claustral. Por sua vontade ter-se-ia feito imediatamente religiosa. Mas foi necessário, antes, servir de segunda mãe do seu irmão lsidoro. Depois em 1853, logo a seguir ao termo da viagem a Paris, deu-se a primeira crise de tuberculose de que haviam de ficar sempre vestígios. E o moral não ficou menos abalado. Durante cinco ou seis anos foi assaltada por dúvidas e inquietações de consciência que não contribuíram pouco para lhe minar a saúde. Andava, por isso, como ressequida. Por aspirar, nessa época, a seguir a Regra austera das Clarissas, cometeu, para mais, a imprudência de praticar excessos em penitências que lhe esgotaram as forças. Por alturas de 1856 deve ter-se dado uma grave recaída pulmonar.

Heroicamente tenaz, transpôs, vitoriosa. todos os obstáculos e, liberta de encargos familiares, livre das angústias interiores, suficientemente restabelecida de saúde, poderá bater à porta da Visitação de Mans, a 7 de Abril de 1858, com este lema bem gravado lia alma: "Venho para aqui para ser santa".

Tinha então vinte e nove anos. Esperava-a uma última prova, a mais terrível. Prevenida dos sintomas de tuberculose que se tinham manifestado na jovem em anos anteriores, a Superiora notificou-lhe a impossibilidade de a conservar entre a Comunidade. Mais uma vez Maria Luísa solicitou e obteve um milagre. Durante os poucos dias de prazo que lhe foram concedidos, manifestou tanto zelo pelo seu trabalho de roupeira, tanto fervor pela oração, tanta aplicação em obedecer à Regra, que a Madre Teresa de Gonzaga de Freslon de tal sorte se impressionou que a admitiu no noviciado entre as "Irmãs agregadas" livres da obrigação do coro. A sua mãe, que viera de Alençon para a levar consigo, sentiu-se igualmente armada por tanta coragem. Estava ganha a batalha.

Zélia tinha-lhe seguido os passos com fraternal ansiedade. Incompreendida da mãe, tinha-se refugiado, com uma espécie de afeto impetuoso, na intimidade da irmã mais velha, tão previdente e tão boa, que lhe recebia todas as confidências. Eram inseparáveis, no rigoroso sentido da palavra. Vinte anos depois, quando a Visitandina morreu santamente, a Senhora Martin evocou essas recordações numa carta dirigida a Paulina: "Eu era tão amiga desta minha irmã! Não podia passar sem ela. Um dia, pouco tempo antes de ela ter partido para o convento, estava eu a trabalhar no jardim; mas ela não estava comigo. Não pude conservar-me sem ela e fui procurá-la. Ela então disse-me: Que hás-de tu fazer quando eu cá não estiver? Respondi-lhe que me iria embora também. Na verdade parti, passados três meses, mas não pelo mesmo caminho".

Na hora dolorosa em que se separou daquela que era na verdade a alma da sua alma é que Zélia Guérin vai ver surgir diante de si, de repente, a perspectiva do casamento. Pensaria nele, de fato, ou sofreria ainda, inconscientemente, a atração do hábito e do conseqüente recolhimento? De estatura um pouco abaixo da mediana, de rosto muito lindo e expressão extremamente pura, de cabelos castanhos despretensiosamente compostos, de nariz comprido e harmonioso de linhas, de olhos negros, cintilantes de decisão e onde por momentos passava uma sombra de melancolia. Zélia tinha dotes para poder agradar. Tudo nela era viveza, delicadeza, amabilidade. Dotada de espírito alegre e culto, de grande sentido prático e de nobre caráter e sobretudo de fé intrépida, era uma mulher superior que devia atrair as atenções.

Uma senhora da sociedade, que vivia em Paris, quis levá-la consigo e apresentá-la nos salões. A proposta fê-la sorrir; não gostava de se exibir. Mas eis que a Providência se mete no caso por meio duma senhora de bom senso empenhada em casar o santo do seu filho, entusiasmado demais com o celibato.

A esposa do Capitão Martin não se consolava de ver o filho, que não tardaria a fazer trinta e cinco anos, enterrar-se na piedosa solidão da relojoaria da Ponte-Nova e do Pavilhão. Censurava-o afetuosamente, mas ele não dava mostras de se impressionar.

Nos cursos profissionais que ela freqüentava nos momentos disponíveis, para se especializar nalgum dos pontos da célebre renda e assegurar à família recursos suplementares, encontrara-se, lado a lado, com Zélia Guérin e notou as sérias qualidades da jovem, envolvidas em tantos encantos. Não seria aquela a esposa ideal para o filho? A pouco e pouco insinuou-se-lhe no espírito e conseguiu abalar uma resistência que parecia invencível.

Uma intervenção misteriosa facilitou a aproximação. Um dia em que Zélia Guérin passava pela Ponte de São Leonardo, cruzou-se com um rapaz, cuja nobreza de fisionomia e dignidade de maneiras e modos reservados a impressionaram. Neste instante uma voz interior segredava-lhe: "Foi este que eu preparei para ti". Informou-se discretamente a respeito da identidade dele e começou a conhecer Luís Martin.

Os dois jovens depressa se apreciaram e amaram. O seu acordo moral estabeleceu-se tão depressa que os esponsais vieram selar, sem demora, o mútuo compromisso, e três meses depois do primeiro encontro puderam unir-se diante de Deus.

A 13 de Julho de 1858 - para não falar no registro civil que apenas representava, aos olhos deles, um odioso contrasenso, nas palavras e uma formalidade vã, na realidade - fizeram os seus mútuos juramentos na esplêndida igreja de Nossa Senhora. O Padre Hurel, Deão de S. Leonardo, que, certamente, haveria aprovado o projeto com a sua autoridade de padre espiritual, recebeu o consentimento dos noivos. A cena passou-se à meia noite, na mais rigorosa intimidade, como que para não saborearem da cerimônia senão o perfume cristão e talvez também porque as grandes obras de Deus se operam no silêncio noturno, e a união de que havia de nascer a Santa de Lisieux tinha o selo da grandeza.

O prédio da rua da Ponte-Nova tinha sido preparado à pressa para receber o novo casal. Como se tratava de uma casa vasta e com entrada particular, prestava-se à coabitação de duas famílias; em perfeita independência, sem prejuízo do espaço reservado à oficina de relojoaria e ao armazém de joalharia.

Os pais do senhor Martin instalaram-se no primeiro andar. Zélia transferiu o escritório para a nova casa. Viveria assim perto dos seus."


Fonte: STÉPHANE JOSEPH PIAT, História de uma Família, Livraria A.I., Braga, sem data, pp. 31-45.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Filhos, uma bênção de Deus



"Filhos, uma bênção de Deus"

Será que acreditamos, de fato, nessas palavras da Igreja?

"A Sagrada Escritura e a prática tradicional da Igreja veem nas famílias numerosas um sinal da bênção divina e da generosidade dos pais" (Catecismo da Igreja Católica - CIC § 2373).

Certa vez o Papa Paulo VI disse a um grupo de casais:

"A dualidade de sexos foi querida por Deus, para que o homem e a mulher, juntos, fossem a imagem de Deus, e, como Ele, nascente da vida". Isto é, doando a vida o casal humano se torna semelhante a Deus Criador. Pode haver missão mais nobre e digna do que esta na face da terra? Alguém disse certa vez, com muita razão, que "a primeira vitória de um homem foi ter nascido".

Nada é tão grande e valioso neste mundo como o homem. Ensina a Igreja que "ele é a única criatura que Deus quis por si mesma" (GS, 24). Por isso o Catecismo da Igreja afirma que:

"Os filhos são o dom mais excelente do Matrimônio e constituem um benefício máximo para os próprios pais" (CIC § 2378).

Será que acreditamos, de fato, nessas palavras da Igreja? Ou será que "escapamos pela tangente", dando a "nossa" desculpa? Lamentavelmente se estabeleceu entre nós, também católicos, uma cultura "antinatalista". Por incrível que pareça "as preocupações da vida" (cf. Lc 12,22; Mt 6,19) sufocaram o valor imenso da vida humana, levando as gerações à triste mentalidade de "quanto menos filhos melhor". À luz do Cristianismo, essa é uma triste mentalidade, pois a Igreja sempre ensinou o valor incomensurável da vida.

"A tarefa fundamental da família é o serviço à vida. É realizar, através da história, a bênção originária do Criador, transmitindo a imagem divina pela geração de homem a homem. Fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da plena doação recíproca dos esposos" (Familiaris Consortio, 28).

A situação social e cultural dos nossos tempos dificulta a compreensão dessa verdade. Nasceu, assim, uma mentalidade contra a vida ("anti-life mentality"), como emerge de muitas questões atuais: pense-se, por exemplo, num certo pânico derivado dos estudos dos ecólogos e dos futurólogos sobre a demografia, que exageram, às vezes, o perigo do incremento demográfico para a qualidade da vida...

"Mas a Igreja crê firmemente que a vida humana, mesmo se débil e com sofrimento, é sempre um esplêndido dom do Deus da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida" (Familiaris Consórtio, 30).

Muitos têm medo de não educar bem os filhos. Pois eu lhes digo que, com Deus, é possível educá-los; basta que o casal se ame, crie um lar saudável e viva para os filhos com todas as suas forças e com toda dedicação. O resto, Deus e eles farão. Faça do seu filho um Homem… isto basta.

Há hoje uma mentira muito difundida - infelizmente aceita também por muitos católicos - afirmando que a limitação da natalidade é o remédio necessário e "indispensável" para sanar todos os males da humanidade. Não há civilização que possa se sustentar sobre uma falsa ética que destrói o ser humano ou que impede o "seu existir". É ilógico, desumano e contra a Lei de Deus, que, para salvar a humanidade seja necessário sacrificá-la em parte.

Jamais a mulher poderá se realizar mais em outra vocação do que na maternidade. É aí que ela coopera de maneira mais extraordinária com Deus na obra da criação. Vitor Hugo disse, certa vez, que "um lar sem filhos é como uma colmeia sem abelhas"; acaba ficando sem a doçura do mel.

Autor: Prof. Felipe Aquino

domingo, 7 de agosto de 2011

"Queridas famílias, sede corajosas!" (Carta de Dom Celso)


Não cedais à mentalidade secularizada que propõe a convivência como preparação ou mesmo substituição do matrimónio.
Mostrai com o vosso testemunho de vida que é possível amar, como Cristo, sem reservas,
que não é preciso ter medo de assumir um compromisso com outra pessoa.
Queridas famílias, alegrai-vos com a paternidade e a maternidade!
A abertura à vida é sinal de abertura ao futuro, de confiança no futuro, tal como o respeito da moral natural, antes que mortificar a pessoa, liberta-a.
O bem da família é igualmente o bem da Igreja.
Quero repetir aqui o que disse um dia:
«A edificação de cada uma das famílias cristãs situa-se no contexto daquela família mais ampla que é a Igreja, a qual a sustenta e leva consigo.
(…) E, vice-versa, a Igreja é edificada pelas famílias, pequenas Igrejas domésticas»(Papa Bento XVI)."

Com meu abraço e minha bênção.
+Dom Celso A. Marchiori


sábado, 6 de agosto de 2011

O cônjuge como um caminho para Deus


O cônjuge como um caminho para Deus
Nossa salvação está unida ao outro e vem por meio do outro
O encontro de duas pessoas em Deus – por intermédio da oração ou da vivência religiosa compartilhada – é uma das formas mais ricas e profundas de encontrar-se, já que estamos diante de Deus, com melhor que cada um possui. Diante do Senhor nos desprendemos de tudo o que normalmente dificulta o encontro e vamos assumindo com mais objetividade a atitude compreensiva, benigna e compassiva do amor de Deus.

A união de duas pessoas pelo sacramento do matrimônio abre a eles uma nova possibilidade de amor sobrenatural: o cônjuge como um caminho para Deus, como lugar de encontro com Deus. No momento solene das bodas, Cristo diz a cada um: Eu, desde agora, vou te amar especialmente através do cônjuge, vou convertê-lo em santuário do meu encontro contigo. E com isso me deixa o grande desafio de buscar ao Senhor no coração do outro onde desde agora está me esperando, de descobrir o rosto de Cristo no rosto do meu cônjuge, de acolher seu amor como transparente e reflexo do amor divino. Em contrapartida, eu devo ser Cristo para o outro, dar a ele o amor, a luz e a força que necessita para crescer e chegar até Deus. E assim cada um se aceita e se doa ao outro como lugar privilegiado de encontro com o Senhor.
Por isso, em todo matrimônio cristão está sempre Deus como terceiro, quem faz de ponte e laço de união entre os cônjuges. E precisamente quando Deus não ocupa esse lugar dentro do matrimônio, então há sempre lugar para outro terceiro, que destrói a aliança matrimonial.

O matrimônio é uma comunidade de salvação unida por um vínculo sobrenatural. O amor de Cristo e Maria selam nosso amor. Estamos unidos como a videira e os brotos. Nossa salvação está unida ao outro e vem por meio do outro. Minha santidade repercute no outro, meu pecado também.
Tão profunda é essa aliança [matrimonial] e esse conhecimento mútuo que os esposos deveriam chegar a ser diretores espirituais um do outro. Tanto se conhecem que podem ajudar ao outro em seu caminho de santidade. Essa aliança de amor se dá entre os esposos e dos esposos com Deus. Por isso é comunidade de salvação, de amor, vida e tarefas com Cristo e Maria.

Compartilhamos sua missão e junto com eles caminhamos para Deus Pai. Em caso que os contraentes humanos entrem em crise o terceiro os ampara. Cristo carrega com eles o matrimônio.

Depois de nossa consagração a Virgem ela também começa a ser uma aliada e nos ajuda no caminho. Ela também nos ampara.
O que dissemos sobre o matrimônio vale para todos os membros da família: pais, filhos, irmãos... Cada um é Cristo para os demais, reflexo do Senhor. Cada um é e há de ser, para o outro, um caminho para o Senhor, caminho privilegiado de amor a Ele.
Nisso encontramos o sentido da aliança matrimonial e o sentido da aliança familiar: Todos juntos, unidos e aliados com a Virgem Maria, caminhamos para Deus. Todos juntos, nos amando mutuamente como ao Senhor, nos consagramos a Maria e, mediante ela, nos entregamos para sempre a Deus.

Queridos irmãos, se nos deixamos educar e guiar pela Virgem Maria, então a aliança com ela é como uma grande escola de amor. Nela aprendemos a amar para percorrer os caminhos do amor divino e chegar ao coração do Pai. E é assim que se tornará realidade em nossa vida a aliança com Deus.

Padre Nicolás Schwizer
Movimento apostólico Shoenstatt

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os demônios da vida conjugal



Os demônios da vida conjugal

Vencer a crise é indispensável para que o amor sobreviva
No amor conjugal, o segredo é não lutar contra a idade, sim estar em união com ela, tal é a regra da sabedoria.
A infância do amor conjugal.
Ao início é, sobretudo, alegria e esperança. O amor é novo e está intacto. Os dois vivem em estado de descoberta permanente. Entretanto, o amor não escapa aos ataques do tempo. Uma primeira crise, a da desilusão, sacode o lar nascente. O demônio da desilusão faz com que a imagem ideal, que um havia construído do outro, comece a desvanecer-se. Para vencer essa crise terão que se aceitar em suas imperfeições. Nessa época o matrimônio se constitui realmente.
A juventude do amor.
Ao final da fase de adaptação, um mútuo conhecimento impede maiores atritos. O amor se instala. Mas, se a crise da desilusão não foi superada, o tempo precipita a segunda crise, a do silêncio. Se o demônio mudo se apodera dos dois, caem em uma espécie de letargia. O casal vive, então, em retrocesso, sem crescer, sem um ritmo seguro, sem dinamismo. Vencer essa segunda crise é indispensável para que o amor sobreviva.
A maturidade do amor.
Por volta dos 15 anos, os esposos adquiriram maturidade. Com uma juventude madura vivem com serenidade. São os anos mais belos da vida conjugal. Já não se fala de felicidade, como quando se é jovem, simplesmente é feliz. Mas, também pode produzir-se o contrário, se não encontraram o caminho do diálogo e de sua unidade. Uma terceira crise, com frequência fatal, é a da indiferença. O amor se transformou em hábito, o hábito em rotina, e a rotina, enfim, em indiferença. Vive-se junto ao outro, mas os corações já não estão em contato: o tempo paralisou ou inclusive matou o amor. A vida em comum não é mais que uma aparência que se mantém, seja por obrigação já que estão os filhos, seja por conveniência social. Com o demônio da indiferença instalado, sempre existe lugar para um novo amor e, por isso, para a infidelidade e a separação.
O meio-dia do amor.
Entre os 45 e 50 anos surge um novo perigo. Em ambos é o difícil momento das mudanças físicas e psicológicas. A mulher perde um atributo de sua feminilidade, a fecundidade. O homem vai perdendo um caráter de sua virilidade: o vigor sexual. Mas, antes que se produza esse declive, muitas vezes se dá uma espécie de volta à adolescência. A essa crise da metade da vida chamamos de: "demônio do meio-dia". Se o matrimônio entra nessa etapa minado pela indiferença e pela rotina, o demônio do meio-dia tem grandes possibilidades de triunfar.
O renascimento do amor.
Se o casal soube superar essa época turbulenta, entra num período de uma segunda maturidade. É o crepúsculo do amor, o momento em que o matrimônio desfruta da unidade conquistada, de una harmonia, profunda e de uma nova paz. É a hora de uma felicidade serena, sem choques e sem conflitos. O tempo, que não perdoa, oferece então aos cônjuges a inapreciável recompensa do renascimento do amor.
O repouso do amor.
Virá, por último, a hora do repouso em que, envelhecidos no amor, ambos só terão reconhecimento um para o outro. Nem sequer a dolorosa perspectiva da morte poderá perturbar a maturidade do amor. Haver-se amado até o final converte a morte num ápice, numa vitória. Diante dos homens, como diante de Deus, não existe um amor mais perfeito que o de dois seres que envelheceram juntos e que deram a mão para vencer as últimas dificuldades a fim de gozar das últimas claridades do dia.
Padre Nicolás Schwizer
Shoenstatt mov.apostólico
21/07/2011

Último adeus à mãe indiana de seis sacerdotes e quatro religiosas


- Elizabeth Anikuzhikattil faleceu no último 14 de julho na cidade de Kerala (na Índia) aos 94 anos de idade.

Esta piedosa mulher católica dedicou toda sua vida a atender sua família e criou 15 filhos, dos quais seis homens se tornaram sacerdotes –um chegou a ser bispo– e quatro mulheres abraçaram a vida religiosa.
A vida de Aleykutty, como era chamada pelos seus amigos, despertou o interesse de católicos em diversos lugares da Índia graças à Congregação Salesiana que dedicou à mulher emotivos obituários por ser a mãe do sacerdote Joseph Anikuzhikattil, reitor de um de seus colégios no país asiático.
Outro dos filhos de Aleykutty é Dom Mathew Anikuzhikattil, Bispo católico siro-malabar de Idukki, uma diocese com 170 sacerdotes, onde 260 000 pessoas (um terço da população) são católicos de rito siro-malabar, conforme informa ReligiónenLibertad.com.
Das suas sete filhas, quatro são religiosas: duas são irmãs do Sagrado Coração, uma salesiana e outra é franciscana missionária de Maria.
O mais jovem de seus filhos sacerdotes morreu atropelado por um caminhão em 1992, quando voltava em motocicleta de dar catequese em um povoado. Era missionário de Santo Tomás Apóstolo.
O Padre Joseph, reitor de um colégio salesiano e doutorado em missionologia pela Gregoriana de Roma, recordou sua infância familiar na selva.
"Ele nasceu em pleno bosque há 53 anos: seus pais estavam entre os pioneiros que colonizaram a densa selva de Idukki. Naqueles dias faziam casas nas árvores para defender-se das feras e dos elefantes selvagens. "Meu pai, com outros pioneiros, limpou o terreno coberto de árvores e se assentaram em Idukki. Lembro de ter crescido em uma grande casa-árvore", explicou o padre ao site DonBoscoIndia.com.
Conforme informa ReL, a valente Aleykutty deu à luz 15 bebês na selva e os criou "com muito êxito", conforme afirma o Padre Joseph.
"A prova mais dura para a família foi possivelmente quando o mais jovem dos meninos, Savio, foi atacado aos 19 anos pela síndrome de Gillen Barry, que causa grave debilidade muscular e ataca o sistema nervoso. 'Esteve 15 anos prostrado, e minha mãe cuidou dele sem que ele nunca tivesse nenhuma ferida por estar de cama'", recorda o sacerdote.
O Arcebispo de Shillong, perto de Udukki, Dom Dominic Devora, recordou a propósito da morte de Aleykutty uma promessa de São João Bosco, fundador dos salesianos: "Um sacerdote é a maior bênção para uma família e todos os que oferecem seus filhos à Igreja serão abençoados por muitas gerações. Eles têm o céu assegurado".

Fonte: ACI Digital

A família no plano de Deus: Natureza da Família


A família no plano de Deus: Natureza da Família

"A comunidade conjugal assenta sobre o consentimento dos esposos. O matrimónio e a família estão ordenados para o bem dos esposos e para a procriação e educação dos filhos. O amor dos esposos e a geração dos filhos estabelecem, entre os membros duma mesma família, relações pessoais e responsabilidades primordiais.
Um homem e uma mulher, unidos em matrimónio, formam com os seus filhos uma família. Esta disposição precede todo e qualquer reconhecimento por parte da autoridade pública e impõe-se a ela. Deverá ser considerada como a referência normal, em função da qual serão apreciadas as diversas formas de parentesco.
Ao criar o homem e a mulher, Deus instituiu a família humana e dotou-a da sua constituição fundamental. Os seus membros são pessoas iguais em dignidade. Para o bem comum dos seus membros e da sociedade, a família implica uma diversidade de responsabilidades, de direitos de deveres.

A FAMÍLIA CRISTÃ

«A família cristã constitui uma revelação e uma realização específica da comunhão eclesial; por esse motivo..., há-de ser designada como uma igreja doméstica». Ela é uma comunidade de fé, de esperança e de caridade: reveste-se duma importância singular na Igreja, como transparece do Novo Testamento.
A família cristã é uma comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai e do Filho, no Espírito Santo. A sua actividade procriadora e educativa é o reflexo da obra criadora do Pai. É chamada a partilhar da oração e do sacrifício de Cristo. A oração quotidiana e a leitura da Palavra de Deus fortalecem nela a caridade. A família cristã é evangelizadora e missionária.
As relações no seio da família comportam uma afinidade de sentimentos, de afectos e de interesses, que provêm sobretudo do mútuo respeito das pessoas. A família é uma comunidade privilegiada, chamada a realizar a comunhão das almas, o comum acordo dos esposos e a dili­gente cooperação dos pais na educação dos filhos."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2201 a 2206.