"Poderíamos aqui meditar sobre como seria saudável também para a nossa sociedade atual se num dia as famílias permanecessem juntas, tornassem o lar como casa e como realização da comunhão no repouso de Deus" (Papa Bento XVI, Citação do livro Jesus de Nazaré, Trad. José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ, São Paulo: Ed. Planeta, 2007, p. 106)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Pais exemplares: a primeira condição para educar corretamente



Pais exemplares: a primeira condição para educar corretamente

A título de introdução, as reflexões de uma mãe honesta e comum sobre o texto "Pais exemplares" (Por Marta Román):

Puxa, que título: "Pais exemplares".

Quantas vezes não escutamos que um exemplo é melhor que mil palavras, ou que as crianças observam tudo. O que eu mais queria era ser uma mãe exemplar!

Para mim, ter me tornado mãe significa que apenas sou mãe, mas daí a ser "exemplar" há uma grande distância. Eu sou apenas uma mãe honesta e comum como outras mães.

Mas convenhamos que não sou a única. Olho os casais amigos e sei que são boa gente, mas isso de "pais exemplares"... São mais "pais para uso interno".

Claro que Tomás Melendo não dá nenhum "exemplo de pais exemplares". Será que existem? Só se refere ao exemplo de cada um para com seus filhos. Certo que ser pais exemplares não é ser pais "tecnicamente perfeitos". Deve ser algo ao alcance de qualquer pai. Conhecendo Tomás Melendo, não estranharia.

Vou continuar lendo... Muito boas as citações. Gostei desta que diz que a justiça sem misericórdia se converte em crueldade, ou, também, que o que forma o caráter de um menino ou de uma menina é o que aprenderam a amar e admirar desde pequenos. Dá o que pensar.

Estou na metade e ainda não sei como me converter em mãe exemplar. Agora encontro umas idéias que nós, pais para uso interno, aplicamos sem saber que estamos nos convertendo em "exemplares". Ou seja, parece que não é tão difícil.

O ponto 4 se intitula assim: "Para ser pais exemplares". E, aqui está, não é nada pomposo nem espetacular. Até parece fácil e, no meu caso em particular, vou fazer mais de uma pessoa feliz. Genial!

Pais exemplares... por amor  

Vimos no artigo anterior que o amor é a base de toda educação. Pretendo considerar a partir de agora alguns dos princípios que exemplificam e torna acessível este fundamento. O primeiro deles: o poder do exemplo.

1 - "Primum vivere...": a vida ensina mais do que qualquer teoria

As crianças tendem a imitar as atitudes dos adultos, em especial dos que amam ou admiram. Concretamente, jamais perdem de vista os pais, observam-nos continuamente, sobretudo nos primeiros anos. Enxergam também quando não olham e escutam inclusive quando estão ou parecem estar muito ocupados brincando. Possuem uma espécie de radar que intercepta todos os atos e palavras ao seu redor.

Por isso, como escreveu Javier Salinas, educar não consiste em acumular conhecimentos, mas sim em ajudar no desenvolvimento harmonioso de todas as dimensões que constituem uma pessoa. E isso pressupõe, sobretudo, a presença eficaz de autênticos educadores: de alguém a quem imitar, alguém com quem se confrontar e que, por seu modo de viver, ofereça estímulos para alcançar a meta da educação, que é o exercício da liberdade e a vontade de se comprometer com aquilo que é bom, nobre e justo.

Ao que acrescenta imediatamente: "Por outro lado, não se deve esquecer que a educação é fundamentalmente imitação, conhecimento de valores e repetição daquelas formas de comportamento que fazem excelente a pessoa".

Afirmação que se aproxima bastante do que afirmava John Stuart Mill: "O que forma o caráter não é o que um menino ou uma menina podem repetir de memória, mas o que eles aprenderam a amar e admirar".

Por isso os pais educam ou deseducam, antes de tudo, com seu exemplo e, muito particularmente, com a orientação que imprimem ao conjunto de sua existência, ou seja, em última instância,

a) ou o amor próprio

b) ou o amor a Deus e, em Deus e por Deus, a todos os demais.

 

2. Coerência eficaz

Além disso, o exemplo possui um insubstituível valor pedagógico, de incitação, de confirmação e de ânimo:

a) Não há melhor modo de ensinar uma criança a se atirar na água do que fazer isso junto com ela, ou, antes dela.

b) E, da mesma forma, ensinar a comer de tudo, pôr e tirar a mesa, lavar os pratos, pôr o quarto em ordem para que fique mais agradável para todos, ir ao supermercado...

c) Manter no lar uma atitude adequada, no seu modo de vestir e no falar, por exemplo, para também tornar mais agradável a vida dos outros, que irão desfrutar de nosso bom aspecto e disposição.

d) Controlar os aborrecimentos e as raivinhas, a não despejar seu mau-humor sobre o primeiro que encontrar no caminho, estar mais interessado em seus irmãos do que em si mesmo, etc.

Tudo isso as crianças aprendem desde muito pequenas, observando o modo como os pais se tratam entre si e, consequentemente, o modo como tratam os outros, incluindo eles mesmos (os filhos). E segundo o que virem, adotarão um modo de vida ou outro: não só, nem principalmente com seus pais, mas com todos aqueles com quem se relacionem e, muito particularmente, com seus irmãos mais próximos.

Por isso, o teste definitivo da marcha de um lar não é o que um filho esteja disposto a fazer por seus pais - normalmente, se a família funciona, muito ou tudo ou quase tudo - , mas o que cada irmão é capaz de fazer pelos outros, especialmente quando a tarefa em questão deveria ser feita por outro de seus irmãos.

As palavras voam, mas o exemplo permanece, ilumina as condutas, desperta... e arrasta.

 

3. Ou ineficácia, ou até mesmo prejuízo

No extremo oposto, junto com a falta de amor recíproco - esposo-esposa -., a incongruência entre o que se aconselha e o que se vive é o maior mal que um pai ou uma mãe pode infligir a seus filhos.

Coisa que ocorre, sobretudo em determinadas idades – a adolescência, sem dúvida, mas também alguns anos antes -, quando o sentido de "justiça" está rigidamente arraigado nas crianças, superdesenvolvido... e disposto a julgar com excessiva dureza os outros.

Dá espanto ver até que extremos pode ser feroz e desapiedado o juízo de uma criança! E, não obstante, não nos deveria assombrar. Como dizia São Tomás de Aquino:

Se falta a misericórdia, a justiça se converte em crueldade.

 

4. Para serem pais exemplares

Para evitar que isto possa acontecer, ou, dito positivamente, se quisermos ser pais exemplares, que ensinam e conduzam, existe um preceito cuja importância é impossível de exagerar e, ao qual, por isso, recorrerei mais de uma vez.

O melhor modo de se manter e fomentar a harmonia de um lar e o crescimento dos filhos consiste em:

a) Reduzir o quanto for possível o número de normas pelas quais se rege sua conduta: "tantas quanto seja necessário e tão poucas quanto seja possível", sugere Murphy-Witt.

b) Fazer com que estes critérios fundamentais correspondam à verdade e à bondade objetivas, ao que é bom ou mau em si mesmo, e não a preferências ou caprichos dos cônjuges. Por conseguinte, estes preceitos serão cumpridos tanto pelos pais como pelos filhos; também, para não fazer rodeios, o uso da televisão, do computador, celulares e aparelhos semelhantes; a visão de determinados programas, o uso e não abuso de bebidas alcoólicas ou de vontades de comidas; ou, com os matizes imprescindíveis, como a hora de voltar para casa, e a de se deitar.

c) Conseguir que em todo o resto se respeite delicadamente a liberdade e a iniciativa das crianças, - assim como antes, as do cônjuge -, mesmo que o modo como agem, ainda que eticamente lícito, se choque frontalmente com as preferências do pai ou da mãe que, como venho repetindo, não deveria contar para nada.

O que importa é o bem do filho, não meus caprichos nem minhas satisfações de pai ou de mãe


Em resumo, alguns poucos critérios claros - muito poucos, objetivos e imutáveis - e um delicado respeito ao modo de ser de cada um.

5. Estabilidade

Insisto agora em que, apesar do que às vezes pensemos, e do que certas modas um tanto defasadas nos impõem, as crianças e os adolescentes - mais ainda que os adultos – necessitam, de forma imperiosa, de alguns pontos de referência estáveis e sólidos. Do contrário, se tornam inseguros, vacilantes e indecisos, além de sofrerem inutilmente.

Estabelecer essas marcas é tarefa dos pais, que sempre devem determiná-las em função da realidade: do bem e da verdade objetivos, do que redunda em real benefício de todos, porque os ensina a amar melhor, estando mais atentos ao bem dos outros que ao próprio.

Do contrário, segundo recorda Murphy-Witt, as supostas normas variarão continuamente, no vai e vem do humor e da melhor ou pior forma em que se encontrem os pais. E as crianças nunca saberão a que obedecer: em lugar de contar com critérios objetivos de conduta, estarão submetidas ao capricho dos adultos.

"Afinal," - imaginam, ainda que não pensem assim explicitamente -, "são mamãe e papai os que decidem".

E os pais o farão inclusive de forma autoritária, quando não tiverem tempo ou vontade para se enredar em discussões intermináveis. Então, aquele que se declarava amigo e companheiro - fazendo concessões imprudentes e desmedidas -, transforma-se, de repente, em ditador, o que, para as crianças, é muito difícil de entender. Quem poderá estranhar que se rebelem e que não respeitem o que foi estabelecido sem levá-los em conta, e sem tampouco levar em conta o bem e a verdade?

Como se pode notar, também agora o perigo deriva de estarmos mais preocupados com nós mesmos do que com nossos filhos e com o que efetivamente os ajuda a serem melhores.

O resultado é uma flutuação contínua entre a imposição de normas rígidas e arbitrárias, quando nos sentimos com forças e disposição de ajudá-los... e o abandono mais absoluto, quando falam mais alto o cansaço, o desânimo ou a comodidade.

Dessa forma, - acrescenta Murphy-Witt -, acaba-se em situações de alternância entre a concessão de uma suposta liberdade progressista e o não se intrometer por comodidade!

E conclui: "As crianças querem ser educadas. Para isso é necessário que também aprendam a tomar suas próprias decisões, conforme sua idade, passo a passo, sob a orientação paterna. Quem conduzir seu filho cuidadosamente até este objetivo, poderá deixar em suas mãos, com plena e segura confiança, toda a liberdade de decisão a respeito de seus próprios interesses".

As normas que se estabelecem em um lar devem responder à verdade e ao bem, objetivos, reais, não a nossos estados de humor, preferências, ilusões, indiferença ou cansaço.

 

Tomás Melendo Granados

Catedrático de Filosofia (Metafísica)

Diretor dos Estudos Universitários em ciência para a Família - Universidade de Málaga

www.masterenfamilias.com

email: tmelendo@uma.es

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Oração para o VII Encontro Mundial das Famílias


Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e nosso Pai
nós Te adoramos, Fonte de toda comunhão.
Proteja e abençoa as nossas famílias
para que nelas haja comunhão e doação mútua entre os esposos,
entre pais e filhos.
Nos te contemplamos Artífices de toda perfeição e de toda beleza.
Conceda a cada família um trabalho digno e justo,
para podermos ter o necessário sustento
e gozar do privilégio de sermos teus colaboradores
na edificação do mundo.
Nós te glorificamos, Motivo de júbilo e de festa.
Abre também às nossas famílias o caminho da alegria e do repouso
para podermos gozar, desde então, daquela alegria perfeita
que nos doaste em Cristo Ressuscitado.
Assim os nossos dias laboriosos e fraternos
são frestas abertas sobre o teu mistério de amor e de luz,
que o Cristo teu Filho nos revelou
e o Espírito vivificador nos antecipou.
E nos viveremos satisfeitos de sermos a tua família,
no caminho para Ti, Deus bendito para sempre.
Amém

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vaticano perante a ONU: Aborto não resolve o problema da mortalidade materna



GENEBRA, 20 Set. 11 (ACI/EWTN Noticias) .-

O Observador Permanente da Santa Sé perante as Nações Unidas e organismos internacionais em Genebra (Suíça), Dom Silvano Tomasi, explicou durante a 18ª Sessão do Conselho de Direitos humanos (CDH) deste órgão que "o aborto não resolve as principais causa de mortalidade" materna.
Na sessão, cujo tema a ser tratado foi a redução da mortalidade por causa da gravidez, Dom Tomasi estimou a importância de diminuir a morte das mulheres grávidas, mas  "sem reconhecer o aborto como método de planejamento familiar".
Segundo a agência vaticana Fides, em sua intervenção o Prelado assinalou a necessidade de "reconhecer que não houve progressos suficientes para evitar as 350 mil mortes durante a gravidez e o parto. A emergência sobre os riscos para a mulher vai além com práticas como a infibulação feminina, os matrimônios de meninas e outras violências".
Nesse sentido, recalcou que cada mulher tem a mesma dignidade que o homem, "uma vocação diferente, mas não de menor valor que do homem".
Do mesmo modo, disse que a Igreja não aceita programas de promoção da contracepção e do aborto que, "por exemplo na África, não resolvem as principais causa de mortalidade".
O Arcebispo destacou que a Igreja Católica tem um compromisso com o âmbito da saúde, e em particular com as pessoas excluídas da assistência assegurada pelos governos, e no âmbito educativo, mas também na promoção de políticas que protejam seus direitos.
Diante destas coincidências com as posturas do CDH da ONU, o Prelado reafirmou que a Igreja não compartilha a expressão "aborto perigoso" que pretende sugerir a existência de um "aborto são", já que qualquer aborto destrói a vida humana, e muito menos o concebe como um método de planejamento familiar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A CONVIVÊNCIA SUPÕE A PACIÊNCIA


Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo
que nos amou e por nós se entregou a Deus
 (Ef 5,2).
Li em algum lugar que um frio terrível se abatera sobre o reino dos animais. Frio tão intenso que, se alguém ficasse sozinho, acabaria congelando. Por isso os animais se agrupavam, um encostado no outro, para que se aquecessem. O porco espinho fez o mesmo, mas logo desistiu: ficou incomodado com as pequenas espetadas de seu colega porco-espinho. Preferiu dormir sozinho. Resultado: morreu congelado. E assim, a cada dia morria um porco-espinho no reino dos animais. Nenhum suportava as espinhadas do outro. Prevendo um fim trágico para todos, entraram num acordo: ficar todos bem juntinhos, se aquecendo, apesar dos espinhos, para não morrerem.
Essa historinha traz uma lição importante: ninguém consegue viver sozinho e ninguém consegue conviver sem algum tipo de sacrifício. Cada pessoa tem "espinhos" que incomodam outros, e os outros têm alguns espinhos que a irritam. Os espinhos são os defeitos pessoais, as limitações, manias. São o modo de falar, de agir, a aparência externa, limites emocionais, cacoetes, pequenas coisas que nos irritam. Percebo os defeitos do outro e ele percebe os meus. Fica a escolha: viver sem incômodos e morrer, ou conviver com eles para viver.
Essas coisas dependem muito de nosso olhar, de nossos sentimentos: atrás de um espinho podemos ver uma roseira ou um espinheiro. Se vemos uma roseira, vale a pena suportar os espinhos devido à beleza da rosa. Se vemos um espinheiro, tomamos distância. No romantismo do namoro e do noivado, os defeitos parecem pequenos encantos, porque o amor é muito forte, é ainda paixão. Depois, no casamento, se entra na rotina, e os defeitos "encantadores" viram motivo de confusão…
A convivência tem por objetivo ajudarmos as pessoas a se aperfeiçoarem. Pelo afeto, compreensão e diálogo ajudá-las a superarem seus limites. Se exijo que o outro não tenha nenhum defeito, tudo bem, somente que o outro também exigirá isso de mim e acabaremos morrendo de solidão, de tédio.
A moça que procura um jovem perfeito para o casamento, acaba ficando sozinha. O marido que sonha com uma rainha dentro do lar, vai perceber que a esposa também quer um rei e lá se vai água abaixo o amor familiar. Há gente sem amigo porque procura o impossível: um amigo perfeito. Muita coisa boa não é construída porque, de tanto enxergar defeito nas pessoas, não temos mais colaboradores.
Atingimos a arte de conviver suportando as pequenas "espetadas" de cada dia, sabendo que nossa paciência ajudará o outro a ser melhor. Vale a pena conviver com pequenas limitações, pois a alegria do estarmos juntos com os outros é muito maior. Se nos isolamos para não nos incomodarmos com os defeitos alheios, acabaremos aumentando o tamanho de nossos defeitos pessoais. O isolamento nos torna incapazes de nos enxergarmos a nós mesmos e nos torna amargos frente à vida.
O outro é meu espelho e eu sou o espelho dele. Às vezes, o que mais me irrita nas pessoas é aquilo que eu tenho e também as irrita. Dizem que vemos nos outros os defeitos que não enxergamos em nós!
Mas não é só por isso, por interesse pessoal, que aceitamos os pequenos sacrifícios impostos pela convivência. Nosso objetivo é maior vai além: existimos para que o outro possa existir. Fomos criados para multiplicar a solidariedade e não a solidão. Ninguém é uma ilha.
Precisamos de humildade, se não quisermos acabar sozinhos. Apesar de alguma "espetada", a convivência enche nossa vida de calor humano. E então, vale a pena viver!
Pe. José Artulino Besen


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

“O amor conjugal e o respeito pela vida humana” (Vaticano II)



"O amor conjugal e o respeito pela vida humana"  ou "A Condenação do Aborto, Esterilização e Anticoncepção no Concílio Vaticano II"
 "O Concílio não ignora que os esposos, na sua vontade de conduzir harmonicamente a própria vida conjugal, encontram frequentes dificuldades em certas circunstâncias da vida atual; que se podem encontrar em situações em que, pelo menos temporariamente, não lhes é possível aumentar o número de filhos e em que só dificilmente se mantêm a fidelidade do amor e a plena comunidade de vida. Mas quando se suspende a intimidade da vida conjugal, não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole; porque, nesse caso, ficam ameaçadas tanto a educação dos filhos como a coragem necessária para ter mais filhos.
Não falta quem se atreva a dar soluções imorais a estes problemas, sem recuar sequer perante o homicídio. Mas a Igreja recorda que não pode haver verdadeira incompatibilidade entre as leis divinas que regem a transmissão da vida e o desenvolvimento do autêntico amor conjugal.
Com efeito, Deus, senhor da vida, confiou aos homens, para que estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis. A índole sexual humana e o poder gerador do homem, eles superam de modo admirável o que se encontra nos graus inferiores da vida; daqui se segue que os mesmos atos específicos da vida conjugal, realizados segundo a autêntica dignidade humana, devem ser objeto de grande respeito. Quando se trata, portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal. Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adotar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova.
Todos, finalmente, tenham bem presente que a vida humana e a missão de a transmitir não se limitam a este mundo, nem podem ser medidas ou compreendidas unicamente em função dele, mas que estão sempre relacionadas com o eterno destino do homem.
Gaudium et Spes, Documento do Concílio Vaticano II

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"O progresso e a promoção do matrimônio e da família" (Vaticano II)



O progresso e a promoção do matrimônio e da família
A família é como que uma escola de valorização humana. Para que esteja em condições de alcançar a plenitude da sua vida e missão, exige, porém, a benévola comunhão de almas e o comum acordo dos esposos, e a diligente cooperação dos pais na educação dos filhos. A presença ativa do pai contribui poderosamente para a formação destes; mas é preciso assegurar também a assistência ao lar por parte da mãe, da qual os filhos, sobretudo os mais pequenos, têm tanta necessidade; sem descurar, aliás, a legítima promoção social da mulher. Os filhos sejam educados de tal modo que, chegados à idade adulta, sejam capazes de seguir com inteira responsabilidade a sua vocação, incluindo a sagrada, e escolher um estado de vida; e, se casarem, possam constituir uma família própria, em condições morais, sociais e econômicas favoráveis. Compete aos pais ou tutores guiar os jovens na constituição da família com prudentes conselhos que eles devem ouvir de bom grado; mas evitem cuidadosamente forçá-los, direta ou indiretamente, a casar-se ou a escolher o cônjuge.
A família - na qual se congregam as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social - constitui assim o fundamento da sociedade. E por esta razão, todos aqueles que têm alguma influência nas comunidades e grupos sociais, devem contribuís eficazmente para a promoção do matrimônio e da família. A autoridade civil há de considerar como um dever sagrado reconhecer, proteger e favorecer a sua verdadeira natureza, assegurar a moralidade pública e fomentar a prosperidade doméstica. Deve salvaguardar-se o direito de os pais gerarem e educarem os filhos no seio da família. Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família.
Os cristãos, resgatando o tempo presente, e distinguindo o que é eterno das formas mutáveis, promovam com empenho o bem do matrimônio e da família, com o testemunho da própria vida e cooperando com os homens de boa vontade; deste modo, superando as dificuldades, proverão às necessidades e vantagens da família, de acordo com os novos tempos. Para alcançar este fim, muito ajudarão o sentir cristão dos fiéis, a retidão de consciência moral dos homens, bem como o saber e competência dos que se dedicam às ciências sagradas.
Os cientistas, particularmente os especialistas nas ciências biológicas, médicas, sociais e psicológicas, podem prestar um grande serviço para bem do matrimônio e da família se, juntando os seus esforços, procurarem esclarecer mais profundamente as condições que favorecem a honesta regulação da procriação humana.
Cabe aos sacerdotes, devidamente informados acerca das realidades familiares, auxiliar a vocação dos esposos na sua vida conjugal e familiar por vários meios pastorais, com a pregação da palavra de Deus, o culto litúrgico e outras ajudas espirituais; devem ainda fortalecê-los, com bondade e paciência, nas suas dificuldades e reconfortá-los com a caridade, para que assim se formem famílias verdadeiramente irradiantes.
As diferentes obras, sobretudo as associações de famílias, procurem fortalecer com a doutrina e a ação os jovens e os esposos, especialmente os casados de há pouco, e formá-los para a vida familiar, social e apostólica.
Finalmente, os próprios esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição."
Gaudium et Spes, Documento do Concílio Vaticano II

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A vida familiar, caminho de santidade



Artigo de D. Francisco Gil Hellín publicado em Romana, n. 20 (1995)
Ao enfrentar o tema da santidade dos esposos, da santidade na vida familiar, ou da santidade na vida conjugal, vem à mente, necessariamente, o princípio configurador de qualquer família, que é o que deve ser santificado: o pacto de aliança conjugal entre os esposos. «A vocação universal à santidade dirige-se também aos cônjuges e aos pais cristãos; para eles foi especificada pelo sacramento celebrado e traduzida nas realidades da existência conjugal e familiar» [1].

Com efeito, não se pode falar de santidade cristã na vida familiar sem viver segundo o Espírito de Cristo a realidade que a constitui e as exigências que traz consigo. Por outras palavras. Não se pode construir a santidade dos membros da família – em primeiro lugar, a dos esposos – sem viver a verdade contida no facto de ser família e, portanto, no pacto ou aliança em que se fundamenta.

As tarefas essenciais que configuram a vida familiar estão já presentes no pacto conjugal. Os elementos primordiais de tal aliança são as coordenadas fundamentais da vida familiar. A vocação cristã exige viver segundo o Espírito de Cristo esta realidade natural inerente à Criação, configurada para os cristãos pelo Mistério Pascal. «O início da plenitude dos tempos (cfr. Gal 4, 4), o momento escolhido por Deus para manifestar plenamente o seu amor aos homens, entregando-nos o seu próprio Filho (…) realiza-se no meio das circunstâncias mais normais e correntes: uma mulher que dá à luz, uma família, uma casa. A omnipotência divina, o esplendor de Deus passam através das coisas humanas, unem-se às coisas humanas» [2].

Pode-se falar, portanto, de um materialismo cristão [3] que vive, no espírito do dom pascal, a realidade concreta da comunhão entre o homem e a mulher, saída das mãos de Deus Criador. Opondo-se a todo o tipo de espiritualismo, a santidade cristã de quantos foram chamados aos matrimónio requer, sobretudo, viver a realidade de ser «dois, numa só carne» (Gn 2, 24). Isto certamente não num sentido redutor mas, sim, conforme a toda a riqueza que implica esta expressão bíblica no âmbito da comunhão interpessoal.

Nisto consiste a tarefa fundamental desta vocação cristã, da qual S. Josemaria Escrivá foi pioneiro com a sua pregação [4] nos anos trinta. É um modo específico de viver esse chamamento universal à santidade no meio do mundo, próprio dos fiéis leigos. Além da sua incansável pregação, S. Josemaria contribuiu para que na vida da Igreja se tornasse realidade este chamamento a santificar-se no matrimónio e na família por meio de tantos milhares de casais que tentam encarná-lo nas suas próprias vidas, respondendo assim à própria vocação de filhos de Deus no Opus Dei. A maioria dos membros do Opus Dei, como declarava o seu Fundador, «vivem no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais são parte da vocação divina» [5].


1. Os deveres fundamentais da vida conjugal

Os deveres primordiais e essenciais da vida familiar estão determinados, dizíamos, pela própria essência do matrimónio sobre a qual assenta a família. A família não pode surgir sem se referir à entrega conjugal do homem e da mulher; tão pouco esta poderia existir à margem da intrínseca exigência de transmitir a vida, procurar e educar novas vidas.

Comunhão de pessoas e serviço à vida são os valores, essenciais e interdependentes, próprios da família. Como pode ver-se, são as próprias leis estruturais do matrimónio. O pacto matrimonial não existiria sem a comunhão conjugal, fruto da recíproca entrega, mas também sem a conatural orientação para transmitir a vida e educar os filhos.

Confirma-o a conexão existente entre a segunda e a terceira parte da Exortação apostólica Familiaris consortio. A parte específica e central do documento, a terceira, começa com o conhecido imperativo: «Família sê o que és!» [6]. Nela são desenvolvidos os dois aspectos constitutivos essenciais da missão da família: comunidade de pessoas (cap. I) e serviço à vida (cap. II). Precedentemente, a segunda parte, fundamento da terceira, relativa aos deveres familiares, está dedicada ao desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família.

O mandamento «Família, sê o que és!» tem as suas raízes no próprio ser do matrimónio, o qual se expressa em leis que estruturam a família. A riqueza contida na semente do matrimónio desenvolve-se com toda a sua força e potência na vida familiar, confirmando dia a dia a validade e o desígnio do germe inicial.

O valor da família fundamenta-se originariamente sobre a qualidade da recíproca entrega dos esposos. É o bem fundamental da célula básica da sociedade. A sociedade estrutura-se segundo vínculos humanos que situam as pessoas em relações de solidariedade, interdependência e serviço. Entre estes laços, o matrimónio possui uma prioridade constitutiva. Embora seja possível prescindir, em maior ou menor medida, de outras relações sociais, esta é substantiva e essencial, e condiciona a qualidade global de uma sociedade. Como recorda a Gaudium et spes, a união do homem e da mulher «constitui a primeira forma de comunhão de pessoas» [7].

O livro do Génesis expressa tal conceito de modo admirável, ao concluir a apresentação ao homem da mulher recém-criada afirmando: «Por isto o homem abandonará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne» (Gn 2, 24). Apesar de ser tão forte o nexo dos filhos com os seus pais sob o ponto de vista biológico – físico até, no que diz respeito à mãe –, de facto não é esta a união mais poderosa que existe na sociedade humana. Há outra que, partindo de seres diferentes pelo sexo e sangue, cria uma fusão natural tão forte que a sua desintegração é tão impressionante como o desmembramento de um corpo vivo [8]. A entrega conjugal une e funde os esposos de tal modo que chegam a ser «uma só carne».

«Quando o homem e a mulher, no matrimónio, se entregam e se recebem reciprocamente na unidade de "uma só carne", a lógica da entrega sincera entra nas suas vidas» [9]. A maturidade e a riqueza humana de um e outro dos componentes do par reflecte-se, necessariamente, no resultado desta «una caro».

Tudo isto determina que o ideal da família que se quer constituir deva influir desde a escolha recíproca dos noivos, e em todo o processo formativo do período preparatório. Com efeito, como diz João Paulo II na Carta às famílias, «a união conjugal – significada na expressão bíblica numa só carne – só pode ser compreendida e explicada plenamente recorrendo aos valores da "pessoa" e da "entrega"» [10]. Em tal processo de conhecimento e compenetração existem aspectos determinantes para a futura família. Sobre alguns deles não poderá transigir-se e será necessário reparar as lacunas de cada pretendente. Doutra forma, os problemas postergam-se mas não se resolvem, e logo voltarão a aparecer, com menores possibilidades de os solucionar adequadamente.

A doação mútua, portanto, colocada na base da «una caro» dos esposos, deve inspirar a recíproca relação em toda a vida conjugal, e deve penetrar e configurar toda a vida familiar. Por exemplo, as relações entre pais e filhos têm as suas raízes na doação ao cônjuge. A paternidade e a maternidade não só não lesam a mútua entrega dos cônjuges como a enriquecem, constituindo a sua optimização mais coerente.

Com efeito, a qualidade da doação recíproca potencia e torna idóneos para uma paternidade e maternidade generosas e cheias de conteúdo. A procriação e a educação dos filhos amadurecem e cultivam-se na genuína entrega esponsal. A tendência para excluir os filhos do horizonte e da doação de si mesmos, ou o limitá-los de maneira injustificada e imprópria, manifesta a imaturidade da dita entrega e a intensidade do egoísmo que a paralisa. Nessa mesma medida priva a entrega pessoal ao esposo ou à esposa da intrínseca referência entre si como ao pai ou à mãe dos próprios filhos.

Já que o doar-se dos esposos é conjugal, a transmissão da vida e aquilo que implica a formação destes repercute-se naturalmente na vida matrimonial. A íntima relação dos cônjuges, a descoberta da maternidade e da paternidade, o crescimento e a educação dos filhos traduzem, em experiência existencial, o bem previamente contido no matrimónio. A comunhão de pessoas, iniciada com uma referência directa entre esposo e esposa, cresce agora e dilata-se pela força de uma lei inscrita no seu ser, transmitindo e formando a «imagem de Deus» nos próprios descendentes.

O serviço à vida não é algo acrescentado à família, é antes um dos seus elementos constitutivos, já que o dom dos esposos tem como fim, pela sua própria estrutura natural, o cuidado da vida. Quando esta força orientadora se desordena e perverte, o próprio egoísmo conjugal corrompe e, nalgumas ocasiões, desnaturaliza a doação mútua dos esposos.

A mentalidade anticonceptiva, mesmo que não alcance a exclusão absoluta dos filhos, prejudica a qualidade da entrega conjugal em muitas famílias. Muitas desventuras conjugais, que terminam perante um juiz tentando obter a declaração de nulidade ou desembocam num divórcio civil, encontram a sua origem numa entrega que excluía a transmissão da vida ou, pelo menos, diferia-a sem motivos sérios. Alguns talvez chegassem a pensar que deste modo fortaleciam a sua total entrega conjugal. Mas a realidade é que nem a procriação prévia ao matrimónio favorece a qualidade da doação mútua, nem esta cresce nem melhora fechando-se ao serviço da vida. Em ambos os casos, se contradiz a entrega conjugal.

Tal entrega possui algumas leis intrínsecas, e cresce e desenvolve-se em conformidade com elas. Doutra forma, não obstante o que aparente à primeira vista, languidesce e pode chegar a morrer por causa dos contínuos actos que contradizem o seu dinamismo natural. «Toda a vida do matrimónio é entrega, mas isto faz-se singularmente evidente quando os esposos, oferecendo-se reciprocamente no amor, realizam aquele encontro que faz dos dois "uma só carne" (Gn 2, 25)» [11].


2. O amor conjugal, alma da vida familiar

O amor conjugal anima e vivifica a vida familiar. Este dinamismo coerente, que faz viver os esposos na alegria da mútua doação, conforma todos os laços familiares com o alegre espírito da entrega. Por isso o amor conjugal faz que as relações entre os pais e os filhos estejam animadas pelo espírito de entrega mútua dos esposos, o qual se estende e difunde a todos os membros da família. A solidez ou fragilidade de tal entrega, manifestada consciente ou inconscientemente na vida quotidiana, indica o grau de consistência de uma família como grupo social.

O amor conjugal não é um dinamismo cego, com manifestações autónomas, mas pelo contrário vivifica a estrutura essencial do matrimónio e, portanto da família. «Deus quis servir-se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da Igreja» [12]. A doação mútua dos esposos e o seu serviço à vida não são leis internas do matrimónio e da família independentes do amor conjugal. Sem este, não se teria levado a cabo a entrega recíproca e esta, sem tal impulso de amor, ficar-se-ia por um compromisso pactuado mas incapaz de cumprir-se por falta de força vital. A doação recíproca dos esposos nasceu com um acto de amor, mas tal doação não se reduz a esse acto de amor constitutivo. Mais ainda, a entrega conjugal reclama ser sustentada e vivificada continuamente pelo amor como seiva vital.

O amor conjugal, ao suscitar como princípio vital a entrega recíproca dos esposos, vivifica também todo o serviço à vida próprio do matrimónio e da vida conjugal. «Não há amor claro, franco e alegre no matrimónio, se não se vive a virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o ordena à fecundidade e à entrega» [13].

Embora a mútua entrega se ordene por si mesma ao serviço da vida, é difícil que tal serviço seja abundante se o amor for débil e vacilante. Um lar em que o serviço à vida – com tudo o que comporta a sua transmissão, a educação dos filhos e a comunicação entre os membros – é florescente, revela que um amor forte e poderoso vivifica toda a estrutura da mútua entrega. A força do amor conjugal torna operativo todo o ser do matrimónio, que é a própria comunhão dos esposos ao serviço da vida. Pelo contrário, sem o dinamismo do amor todo o organismo do matrimónio e da família fica anquilosado e paralisado.

A existência do matrimónio não depende do amor, no sentido de que o seu desaparecimento dissolva a consistência do matrimónio. É verdade que se faltar o amor no matrimónio, fica adormecida tanto a sua vida como a sua actividade. Do mesmo modo que a vida da semente a faz germinar e nos dá a conhecer a estrutura da planta, e depois, como seiva vivificante a faz crescer e produzir flores e frutos, assim o amor conjugal faz germinar o matrimónio como instituição com a sua própria estrutura específica. Por conseguinte, se o amor, como princípio vital, continua a alimentar tal estrutura, esta desenvolve-se numa comunhão de vida entre os cônjuges e cresce transmitindo a vida aos descendentes.

É a vida do matrimónio e da família, e não o seu ser constitutivo, o que está implicado directamente na presença ou na ausência do amor conjugal, ou do amor paterno e materno pelos filhos. Sem dúvida que a instituição matrimonial sem amor conjugal é como um cadáver, o qual apesar de possuir toda a estrutura física de um ser humano, nem por isto é um ser vivo. A estrutura do matrimónio e da família tem necessidade do amor como do seu espírito e da sua vida; um espírito que pode sempre ressurgir, superando possíveis crises conjugais, ainda que tivesse adormecido ou aparentemente se tivesse perdido. Este amor é a resposta permanente, actual e viva, à exigência de entrega total que está na base do matrimónio. O amor conjugal, por sua vez, expressa-se tornando-se evidente mediante a estrutura, mas esta não pode ser modificada conforme a vontade dos cônjuges. O amor conjugal pode deste modo crescer e desenvolver-se até à plenitude da sua perfeição.

A vida íntima conjugal é uma manifestação específica da doação recíproca entre os esposos e o modo próprio em que a «una caro» dos esposos demonstra a sua conatural ordenação à transmissão da vida. Como pode ver-se, as próprias leis da estrutura do matrimónio e da família – entrega dos cônjuges e serviço à vida – constituem as coordenadas estruturais do acto conjugal. São dois aspectos que a Encíclica Humanae vitae afirma como significados essenciais e inseparáveis: unitivo e procriador.

No entanto, estes aspectos essenciais, que compõem o ser do acto conjugal, devem ser vivificados pelo amor. Pelo qual, como recorda a Constituição pastoral Gaudium et spes ao falar da moralidade conjugal, é necessário recorrer a critérios objectivos que mantêm, num contexto de verdadeiro amor, o sentido íntegro da mútua entrega e da procriação humana [14]. Com palavras do Fundador do Opus Dei: «as relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos» [15].

São, portanto, dois os critérios objectivos da moralidade conjugal, indicados pelos Padres conciliares, que foram explicitamente concretizados por Paulo VI na resposta à questão dos contraceptivos. Estes critérios unitivo e procriador da vida conjugal, radicados no próprio ser do matrimónio, ajudam a entender e diferenciar os aspectos da vida matrimonial e familiar.

Tais critérios tornam incompatível a anti-concepção, qualquer que seja a sua forma, com a santidade na vida conjugal. Do mesmo modo se excluem radicalmente todo o tipo de procriação artificial, seja heteróloga ou homóloga. Com efeito, enquanto que qualquer forma de anti-concepção destrói a orientação natural da entrega conjugal à transmissão da vida, a procriação artificial, também a homóloga, substitui e, portanto, elimina desta acção a própria doação conjugal. Nem no caso de um acto anti-conceptivo se pode falar de verdadeiro acto conjugal, por estar privado voluntariamente de um dos seus aspectos essenciais; nem no caso da fecundação artificial a vida é fruto da recíproca entrega dos esposos.

A santidade da vida matrimonial conduz os esposos a viver o acto próprio e específico dos cônjuges com o mesmo amor que os levou à entrega matrimonial. No dito acto, «o homem e a mulher estão chamados a ratificar de maneira responsável a recíproca entrega que fizeram de si mesmos com a aliança matrimonial» [16]. Mais ainda, a comunhão específica, mediante a qual chegam a ser «uma só carne» pode expressar e aperfeiçoar de maneira singular aquele amor conjugal que deu origem ao matrimónio [17]. Fomentar o exercício da intimidade conjugal, privando-a positivamente da potencialidade procriadora, com o pretexto de não pôr em perigo a fidelidade conjugal, é buscar a solução de possíveis males com remédios paliativos que, além de não resolver os problemas, os acentuam e agravam.

A santidade da vida íntima conjugal assume a mesma condição dos esposos e da sua união íntima na carne, sabendo respeitar, nas leis intrínsecas da relação física, o mistério transcendente das pessoas como colaboradoras do Deus da vida. Santificar também a recíproca entrega física prova e expressa, neste acto de amor, até que ponto a vida de relação dos esposos está impregnada de entrega e de abertura aos filhos.


3. Realidades humanas vividas segundo o Espírito de Cristo

Estes deveres conaturais ao matrimónio e à família convertem-se em obras de santidade para os esposos, os quais foram fortalecidos pelo sacramento do matrimónio. «O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e através dele. Para isso, os cônjuges têm uma graça especial que o sacramento instituído por Jesus Cristo confere» [18].

O mistério da graça da união de Cristo com a Igreja, do qual participam agora, acrescenta uma capacidade peculiar de testemunhar e plasmar através dos deveres próprios de todos os esposos, a presença do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja na história dos homens [19].

O sacramento do matrimónio, instituído por Cristo, dizia S. Josemaria Escrivá, é «sinal sagrado que santifica, acção de Jesus que invade a alma dos que se casam e os convida a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num andar divino pela terra» [20].

Esta transformação da vida conjugal e familiar por Cristo é obra do seu Espírito, que actua em primeiro lugar pela caridade. A vida dos esposos e pais cristãos e dos outros membros da família, revela o mistério do amor de Deus entre os homens, na medida em que as suas relações familiares e sociais estão impregnadas das virtudes teologais: a fé, a esperança, a caridade.

Tudo aquilo que expressa a relação de entrega recíproca dos esposos cristãos encontra-se sob a acção da graça. Por isso, na medida em que cada um deles se apercebe desta realidade, assumindo-a de modo consciente com a docilidade que exige a acção do Espírito Santo nas suas almas, cresce e participa mais abundantemente da vida de Deus como esposos e pais. A união vital existente entre a relação com Deus e a entrega conjugal ao esposo ou à esposa começa a ser uma realidade sólida. Esta mesma entrega conjugal especifica a entrega própria a cada um dos outros membros da família.

O amor de Deus e o amor do cônjuge percorrem um mesmo caminho que manifesta, numa linguagem humana compreensível a qualquer pessoa, os tesouros insondáveis do mistério da Encarnação. Mas, ao mesmo tempo, é o amor de Deus, forte como a morte [21], o que purifica, configura e eleva todas as expressões humanas do amor e da entrega entre os esposos para que sejam instrumentos que manifestam a doação de Cristo à Igreja.

A espiritualidade conjugal não se constitui a partir do exterior com a multiplicação dos actos de piedade, com a simples imitação de comportamentos exemplares. A piedade e a imitação das virtudes sem dúvida alimentam a santidade dos esposos na medida em que os conduz a viver mais plenamente o sentido sacramental da sua união. «Os casados estão chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união: cometeriam, por isso, um grave erro. se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar» [22].

A espiritualidade conjugal cristã tem o seu próprio fundamento no mistério da entrega fecunda de Cristo à sua Igreja, da qual os esposos cristãos participam mediante o sacramento do matrimónio. Esta participação constitui um princípio dinâmico que, operando por meio das virtudes da fé, da esperança e da caridade, converte o próprio lar numa célula fundamental e vivificante do Reino de Deus em Cristo: a igreja doméstica.

Quando na família se vive em coerência com este mistério participado, os filhos nascem como o fruto concreto da entrega dos esposos: expressões da carne, fruto do espírito. Como a fidelidade, também o serviço à vida, próprio da entrega conjugal, vive-se não na agitação e desassossego da carne, mas com a força unificadora do espírito.

O serviço à vida, quer seja a procriação, o crescimento e a alimentação, a educação ou a formação, não pode senão reforçar o dom mútuo dos esposos. Um equilíbrio precário no serviço à vida, que não traz consigo o crescimento na comunhão dos esposos, manifesta-se numa entrega já débil ou doente a partir do momento do compromisso matrimonial, ou que se que se quebrou e debilitou por causa de uma vida incoerente. Não existe uma entrega conjugal que não comporte uma maior exigência de serviço à vida, assim como não se dá um radical empenho de transmitir a vida e servi-la que não leve a concretizar e melhorar a entrega dos esposos.

O trabalho, a convivência, a relação quotidiana nas actividades mais transcendentes ou mais ordinárias, constituem a trama do exercício das virtudes que impregnam toda a vida doméstica. A constância em levar por diante as próprias ocupações, a serenidade e afabilidade no trato com os outros, a sinceridade para reconhecer os próprios erros, a capacidade de compreender e perdoar, a fortaleza para corrigir os defeitos pessoais, a paciência consigo próprio e com os outros, o optimismo para ajudar a superar-se… são virtudes que, apoiando-se na fé, esperança e caridade, traduzem na vida dos filhos de Deus o quotidiano desenrolar da vida familiar.

Assim se expressa S. Josemaria: «A vida familiar, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar» [23].


4. União conjugal generosa e fecunda

A santidade matrimonial requer, portanto, viver no espírito do Mistério Pascal – Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo –, uma manifestação específica da vida dos esposos: a relação conjugal íntima. Esta possui indubitavelmente uma forte influência e repercussão sobre a santidade dos outros componentes da família, enquanto que aparece como a pedra angular do arco da coerência de vida própria do estado esponsal.

Certamente qualquer comunicação de palavras e outras acções entre os cônjuges pode expressar a sua recíproca entrega e a positiva acção de serviço à vida: um sorriso, o olhar, uma amabilidade, uma palavra, um gesto, um serviço… No entanto, a união íntima da carne como expressão da comunhão das suas pessoas é singular e específica.

Esta união actualiza no tempo a verdade da aliança conjugal estipulada com a doação recíproca das pessoas do homem e da mulher. Por conseguinte tal dom requer o seu cumprimento em plenitude como união única, exclusiva e para sempre. Não admite que lhe falte nenhuma das propriedades naturais do pacto matrimonial. Só a suspeita disto impediria que houvesse verdadeira comunicação íntima, despojando-a da sua condição específica de comunhão de pessoas.

A santidade esponsal implica, portanto, viver a verdade desta união com generosidade e a coerência da entrega que tal comunhão actualiza. A expressão da recíproca entrega conjugal, além de exigir a coerência, promove-a, enquanto constitui um chamamento a viver as exigências que actualiza. A sinceridade da entrega quotidiana prepara e dispõe a viver esta expressão específica de verdadeiro dom recíproco, e este, por sua vez, pode ajudar a expressá-la nos variados e diversos aspectos da vida.

Portanto, a santidade cristã dos esposos requer viver segundo o Espírito a realidade plena de tal entrega. O mistério da entrega de Cristo à Igreja – até à morte, e morte de cruz –, no qual os esposos cristãos participam em virtude do matrimónio, deve impregnar esta comunhão das pessoas com a lei da entrega, mais que da posse. Esta união é sempre fecunda e, geralmente, manifesta-se também com os frutos da procriação. A geração humana exige a comunhão dos progenitores numa só carne como manifestação da comunhão existente entre as suas pessoas. Por isso, os aspectos da união e da procriação são elementos inseparáveis de um mesmo valor moral. Por este motivo, para viver uma procriação responsável, necessária à santidade dos esposos, é pressuposto indispensável a responsabilidade na mencionada comunhão.

As faculdades superiores do homem não possuem um domínio directo e absoluto sobre a procriação, como também sobre as outras funções biológicas do homem. Delas dependem certamente os actos da relação íntima, necessários para a transmissão da vida. Assim, a conexão entre os actos conjugais e a transmissão da vida têm as suas próprias leis, não submetidas ao domínio da vontade. Portanto, falar de procriação responsável implica directa e propriamente a responsabilidade na comunicação íntima conjugal. Só indirecta e mediatamente pode ser relativa a faculdade de transmitir a vida.

A responsabilidade exerce-se, ou deixa de exercer-se, nos actos que dependem da vontade; do qual decorre que os efeitos consequentes são responsáveis ou irresponsáveis. Não se pode propor como responsável a vontade de não procriar, sem que esta mesma vontade determine uma atitude coerente nas relações conjugais. Em conclusão, não se pode ser irresponsável nas relações íntimas e pretender ser responsável na transmissão da vida.

Isto implica para a santidade conjugal, que o Espírito de Cristo penetre nas relações íntimas dos esposos ,assumindo consciente e responsavelmente a própria índole de transmissores da vida. Não é suficiente por parte dos esposos o respeito da vida que tais actos podem eventualmente suscitar; a santidade matrimonial implica uma disposição positiva a respeito da vida que tal união, voluntária e consciente, pode procriar.

Somente quando existem sérios motivos que tornariam irresponsável suscitar uma nova procriação, se justifica o recurso a relações naturalmente infecundas. Tal continência periódica, em si mesma lícita, requererá no entanto que os esposos assumam de modo responsável a eventualidade de que a relação possa ser fecunda. Esta natural incerteza relativa aos actos conjugais e à sua fecundidade, exigirá dos esposos, nalgumas circunstâncias, uma abstenção proporcionada com a gravidade dos motivos que desaconselham a transmissão da vida, e mesmo a absoluta abstinência, quando a possível procriação, que continua a ser voluntária in causa, pudesse comprometer um bem tão grande como a vida da esposa.

Como se adverte com clareza, as exigências da vida conjugal não se podem viver sem um grau de amor e desprendimento de si mesmo tais que transcendem toda a força humana e reclamam o auxílio divino. Com efeito, não existe na ordem natural um acto de maior amor e desprendimento que o contido e implicado na doação matrimonial. Tudo isto leva o Santo Padre a perguntar-se: «Acaso se pode imaginar o amor humano sem o Esposo e sem o amor com que Ele amou primeiro até ao extremo?» A tal pergunta, responde assim: «Só se participam neste amor e neste "grande mistério", os esposos podem amar "até ao extremo"; ou se tornam participantes dele, ou então não conhecem verdadeiramente o que é o amor e a radicalidade das suas exigências» [24].


5. Exercício das virtudes cristãs
Para os esposos cristãos, o matrimónio e, concretamente, os aspectos da entrega conjugal e da transmissão da vida constituem o âmbito específico da própria santidade, quer dizer, o lugar próprio do exercício de todas as virtudes, principalmente as teologais. «Para santificar cada jornada, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs, as teologais em primeiro lugar e, depois, todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, a laboriosidade, a alegria…» [25]. A fé ajudá-los-á a descobrir o mistério de que participam, em pormenores, exigências, penas e alegrias da vida ordinária. «Com efeito – sublinha a Familiaris consortio –, só na fé os esposos podem descobrir e admirar com gozosa gratidão, a que dignidade quis Deus elevar o matrimónio e a família, constituindo-os como sinal e lugar da aliança de amor entre Deus e os homens, entre Jesus Cristo e a sua esposa a Igreja» [26].

Esta mesma fé fará perceber aos esposos na sua vida, nos momentos e circunstâncias de dor e sofrimento, o mistério da entrega redentora de Cristo pelos homens. «Dentro e através dos acontecimentos, os problemas, as dificuldades, os factos da existência de todos os dias, Deus vem a eles revelando e propondo as "exigências" concretas da sua participação no amor de Cristo pela Igreja» [27]. A própria fé cristã projectará luz abundante sobre a responsável entrega íntima como expressão concreta do amor de Cristo por cada um deles através do outro, também no gozo sensível e espiritual que advém da dita entrega. Será assim um farol resplandecente para os esposos cristãos na tarefa da procriação e da educação de novas vidas, enquanto participantes do poder criador de Deus e da acção redentora de Cristo na Igreja.

Cumprir com plenitude o projecto de doação pessoal implícito no matrimónio, e da entrega dos pais aos filhos através da procriação e educação, é um dever que supera as forças meramente naturais. A virtude da esperança confere aos cristãos a certeza de que, Aquele que os chamou à vocação de esposos e pais, não deixará de os assistir com a sua graça para tornar fecunda e eficaz a sua resposta às exigências concretas da própria vocação.

A fé, que ilumina o mistério da cruz fecunda, do qual participam, leva-os a viver, na esperança, a coerência desejada e nem sempre realizada em todas e cada uma das manifestações quotidianas. A certeza de que os últimos tempos começaram, mas que ainda não estão consumados, fá-los desejar e suplicar a graça, e agradecer com frutos maduros, sempre desejosos de ser revestidos da presença do Esposo que confirme definitivamente neles a fidelidade à Esposa.

As virtudes teologais e, especialmente, a caridade, aperfeiçoam o ser humano nas suas exigências naturais. Deste modo o homem, que não pode «encontrar-se plenamente a si mesmo a não ser no sincero dom de si» [28], recebe no amor participado de Cristo a força primordial para a própria realização. «O amor faz com que o homem se realize mediante a entrega sincera de si mesmo. Amar significa dar e receber o que não se pode comprar nem vender, mas somente oferecer livre e reciprocamente» [29]. A caridade participada, no caso dos esposos cristãos, é o amor esponsal, raiz última do Mistério Pascal: a união de Cristo com a Igreja. «Assim, em cada família autenticamente cristã – recorda-nos S. Josemaria Escrivá – reproduz-se de algum modo o mistério da Igreja, escolhida por Deus e enviada como guia do mundo» [30].

A família é incorporada à Igreja respeitando, mais ainda, confirmando e elevando a acção da Igreja, o que constituía missão própria de tal comunidade natural. «Se a família cristão é uma comunidade cujos vínculos foram renovados por Cristo mediante a fé e os sacramentos, a sua participação na missão da Igreja deve realizar-se conforme uma modalidade comunitária: isto é, juntamente os cônjuges como casal, os filhos e os pais enquanto família, devem viver o próprio serviço à Igreja e ao mundo» [31].

Daqui que a missão da família na Igreja não seja a soma das missões dos membros que a compõem. A Exortação apostólica Familiaris consortio esclarece que «a família cristã está chamada a tomar parte viva e responsável na missão da Igreja de modo próprio e original, isto é, pondo-se ela mesma ao serviço da Igreja e da sociedade no seu ser e na sua acção, enquanto íntima comunidade de vida e de amor» [32].

O matrimónio e a família, graças ao seu conteúdo fundamental do dom de si ao cônjuge e aos filhos, são em si mesmos expressão primária e protótipo de todo o vínculo social [33]. Quando além disso é vivificada pelo amor de Cristo, a família converte-se em igreja doméstica, célula básica do Reino de Cristo entre os homens; sinal participado da comunhão e amor fecundo entre Cristo e a Igreja [34]. A família «como "igreja doméstica", é a esposa de Cristo. A Igreja universal, e dentro dela cada Igreja particular, manifesta-se mais imediatamente como esposa de Cristo na "igreja doméstica" e no amor que se vive nela: o amor conjugal, amor paterno e materno, amor de uma comunidade de pessoas e de gerações» [35].


6. Sacerdócio comum: a oferenda da própria existência
«Pelo Baptismo, fomos todos constituídos sacerdotes da nossa própria existência, para oferecer vítimas espirituais que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo (1 Pe 2, 5) para realizar cada uma das nossas acções em espírito de obediência à vontade de Deus, perpetuando assim a missão do Deus-Homem» [36].

Todo o baptizado deve viver o próprio sacerdócio convertendo a sua existência num culto agradável a Deus Pai. «E como do sacramento derivam para os cônjuges o dom e a obrigação de viver quotidianamente a santificação recebida, assim nesse mesmo sacramento se fundamentam a graça e o dever de transformar toda a sua vida num contínuo sacrifício espiritual» [37].

Existe portanto uma característica específica do sacerdócio comum dos esposos cristãos: o modo peculiar de fazer da sua própria existência uma oferta espiritual. O sacramento do matrimónio transformou em unidade social aquela identificação com Cristo previamente adquirida por cada um no Baptismo. Portanto, a oferenda da própria existência tem para eles uma dimensão específica: a unidade conjugal. O sacerdócio comum dos esposos adquire uma dimensão familiar. De agora em diante cada um deles não poderá viver a oferenda da sua existência a não ser como esposo e esposa e, portanto, como pai ou mãe, pelo menos potencialmente.

Por outras palavras, os cônjuges cristãos não podem viver a oferenda das próprias vidas a não ser no exercício da missão de esposos e pais, própria da sua identidade dentro do Povo de Deus. As virtudes humanas e cristãs fá-los-ão viver a vontade concreta de Deus em todas as actividades e deveres próprios, e descobrir neles a resposta de entrega como oferta grata a Deus por Jesus Cristo.

Toda a vida é, por conseguinte, exercício deste sacerdócio, e toda a vida estará cheia pela entrega ao cônjuge e aos filhos. Este é o seu modo peculiar e eficaz de construir a cidade dos homens e a cidade de Deus. Qualquer outra actividade ou ocupação, trabalho, descanso, vida de piedade e de relação social, encontra-se em estreita unidade com a ocupação fundamental que Deus estabeleceu como centro das suas vidas.

A Eucaristia adquire para os esposos, nesta perspectiva da oferenda da própria existência, não só a função de raiz da que nasce o próprio sacerdócio, mas também de consumação do mistério da entrega fecunda da qual participam. O mistério eucarístico potencia toda a sua entrega de esposos, e deles mesmos aos filhos, com o dinamismo de totalidade da entrega de Cristo ao Pai. A Eucaristia, para aqueles que, graças à sua união, são sinal e representação da entrega de Cristo à Igreja, leva a uma especial urgência de realizar no mundo – hoje e agora – o amor de Deus aos homens revelado na morte de Cristo. «Com efeito, todas as suas obras –afirma a propósito dos leigos a Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II –, as suas orações e iniciativas apostólicas, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso espiritual e corporal, se se cumprem no Espírito, e inclusivamente as agruras da vida se são suportadas com paciência, convertem-se em sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cfr. 1 Pe 2, 5), os quais são piedosamente oferecidos na celebração da Eucaristia juntamente com a oblação do Corpo de Nosso Senhor» [38].

Revelar, com a peculiaridade dos esposos e pais cristãos, o mistério do amor é contribuir para a sua glorificação. Dar glória a Deus, como fim próprio do homem nesta terra, está intimamente ligado à santidade e à perfeição, bem como à própria felicidade humana das famílias. «Mas não esqueçam que o segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Está em encontrar a alegria íntima que dá a chegada ao lar; está no convívio carinhoso com os filhos; no trabalho de todos os dias, em que colabora toda a família; no bom humor perante as dificuldades, que é preciso encarar com desportivismo» [39].

No caso dos esposos, a santidade e, portanto, a glória de Deus, constrói-se secundando na vida quotidiana, de modo consciente e voluntário, os deveres centrais que especificam a vocação como entrega conjugal ao serviço da vida.

Qualquer outra orientação dirigida a dar glória a Deus que prescindisse destas coordenadas básicas da santidade conjugal, seria um desvio para os esposos. O modo próprio e específico da santidade dos esposos consiste em reproduzir na própria vida o mistério do qual participam em virtude do sacramento: um mistério de entrega fecunda. Este é o caminho da sua perfeição cristã e da glória de Deus reflectida nas suas vidas. Testemunhos do amor de Cristo na Cruz: entrega fecunda.

Com palavras de S. Paulo, o Papa suplica pela santidade dos esposos e das famílias: «Dobro os meus joelhos diante do Pai do qual toma nome toda a paternidade e maternidade "para que vos conceda … que sejais fortalecidos pela acção do seu Espírito no homem interior" (Ef 3, 16)» [40].




Notas:

[1] João Paulo II, Exort. Apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 56.

[2] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 22.

[3] «O sentido cristão autêntico – que professa a ressurreição de toda a carne – sempre combateu, como é lógico, a desencarnação, sem receio de ser julgado materialista» (Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 115).

[4] Cfr. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 27; Temas Actuais do Cristianismo, nn. 45, 91, 93.

[5] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 91.

[6] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1987, n. 17.

[7] Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 12.

[8] Cfr. P. Adnès, El matrimonio, Herder, Barcelona (1972, 2ª ed.), p. 28.

[9] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 11.

[10] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 12.

[11] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 12.

[12] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 24.

[13] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 25

[14] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 91.

[15] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 25.

[16] João Paulo II. Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1944, n. 12.

[17] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 51.

[18] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo, n. 91,

[19] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes. N. 48.

[20] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[21] Cfr. Cant 8, 6.

[22] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[23] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[24] João Paulo II, Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 19.

[25] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 23.

[26] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 51.

[27] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 51.

[28] Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 24

[29] João Paulo II, Carta às famílias gratissimam sane, 2-II-1944, n. 11.

[30] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 30.

[31] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 50.

[32] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 50.

[33] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 12.

[34] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 11.

[35] João Paulo II,Carta às famílias Gratissimam sane, 2-II-1994, n. 19.

[36] Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 96.

[37] João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 21-XI-1981, n. 56.

[38] Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 34.

[39] Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo. n. 91.

[40] João Paulo II, Carta às famílias gratissimam sane, 2-II-1994, n. 23.

Artigo de D. Francisco Gil Hellín publicado em Romana, n. 20 (1995)

domingo, 11 de setembro de 2011

A defesa da família e da vida nos discursos do Papa Bento XVI no Brasil


 
A defesa da família e da vida nos discursos do Papa Bento XVI no Brasil
Como o Papa Bento XVI apresentou a questão em sua viagem ao Brasil
 

Merece destaque nos discursos do Papa, em sua visita ao Brasil, a defesa da família e da vida.

"É verdade que os tempos de hoje são difíceis para a Igreja e muitos dos seus filhos estão atribulados. A vida social está atravessando momentos de confusão desnorteadora. Ataca-se impunemente a santidade do matrimônio e da família, iniciando-se por fazer concessões diante de pressões capazes de incidir negativamente sobre os processos legislativos; justificam-se alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual; atenta-se contra a dignidade do ser humano; alastra-se a ferida do divórcio e das uniões livres... Como não sentir tristeza em nossa alma? Mas tende confiança: a Igreja é santa e incorruptível (cf. Ef 5,27). Dizia Santo Agostinho: "Vacilará a Igreja se vacila o seu fundamento, mas poderá talvez Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá intacta até o fim dos tempos" (Enarrationes in Psalmos, 103,2,5; PL, 37, 1353.) (Discurso aos bispos do Brasil, 11/mai).

A família, "patrimônio da humanidade", constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos. Ela foi e é a escola de fé, palestra de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e é acolhida generosa e responsavelmente. Todavia, na atualidade sofre situações adversas provocadas pelo secularismo e pelo relativismo ético, pelos diversos fluxos migratórios internos e externos, pela pobreza, pela instabilidade social e pelas legislações civis contrárias ao matrimônio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o aborto, ameaçam o futuro dos povos. (Discurso inaugural do V CELAM, 13/mai).

Os povos latino-americanos e caribenhos têm direito a uma vida plena, própria dos filhos de Deus, com condições mais humanas: livres das ameaças da fome e de todas as formas de violência. Para estes povos, os seus Pastores têm que fomentar uma cultura da vida que permita, como dizia o meu Predecessor Paulo VI, "passar da miséria à posse do necessário, à aquisição da cultura, à cooperação no bem comum... até chegar ao reconhecimento, por parte do homem, dos valores supremos e de Deus, que é a origem e o termo deles" (cf. Populorum progressio, 21).
Neste contexto, é-me grato recordar a Encíclica "Populorum progressio", cujo 40º aniversário recordamos no corrente ano. Este documento pontifício põe em evidência o fato de que o desenvolvimento deve ser integral, isto é, orientado rumo à promoção de todo o homem e de todos os homens (cf. n. 14), e convida todos a eliminar as graves desigualdades sociais e as enormes diferenças no acesso aos bens. Estes povos aspiram, sobretudo, à plenitude de vida que Cristo nos trouxe: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10, 10). Com esta vida divina desenvolve-se também plenamente a existência humana, nas suas dimensões pessoal, familiar, social e cultural. (Discurso inaugural do V CELAM, 13/mai).

A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente; neste sentido, não deixará de insistir no empenho que deverá ser dado para assegurar o fortalecimento da família - como célula mãe da sociedade; da juventude - cuja formação constitui um fator decisivo para o futuro de uma Nação - e, finalmente, mas não por último, defendendo e promovendo os valores subjacentes em todos os segmentos da sociedade, especialmente dos povos indígenas. (Discurso de boas vindas, 9/mai)

Nossa busca pela vida vem desde o papa João Paulo 2º. Ele fez disso um ponto central de seu pontificado, fez uma encíclica que avançava já nessa mensagem de que a vida é um dom, e não uma ameaça. Nessas situações [legalização do aborto no México] há um certo egoísmo e, de outra parte, é uma questão de valor e beleza da vida. É nisso que está o futuro. Sobretudo a vida é bela. Isso não é uma questão da igreja, é um dom em si. Mesmo em condições difíceis, é sempre um dom recriar o reconhecimento desta beleza. Sobre o futuro, claro, pairam tantas ameaças, mas a felicidade é que Deus é sempre mais forte e presente no teatro da história, para que possamos dar, com confiança, a vida a um novo ser humano. A fé garante a beleza da vida. Podemos resistir a esse egoísmo e a esse medo, que está em algumas coisas dessas legislações. (Entrevista coletiva dada no avião durante a viagem ao Brasil, 9/mai – TEXTO NÃO OFICIAL)

Sei que a alma deste Povo, bem como de toda a América Latina, conserva valores radicalmente cristãos que jamais serão cancelados. E estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana; fará também da promoção da pessoa humana o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados. (Discurso de boas vindas, 9/mai)

 
 

 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

ALGUNS UTENSÍLIOS PARA O CASAMENTO



Maridos e mulheres, sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo" (Ef 5, 21-33).
Assistindo a um casamento, um Bispo recomendava aos noivos que levassem para a nova residência três coisas que pertenciam às famílias tradicionais: tesoura, agulha e linha. Mas não levá-las apenas materialmente, afinal, é difícil uma casa sem tesoura, agulha e linha. Estes três objetos devem adquirir um sentido simbólico: cortar o que separa e costurar o que une na vida matrimonial.
Num estilo de vida que privilegia o interesse pessoal, o narcisismo e descarta a compreensão e o perdão, é sempre mais difícil a convivência do homem e da mulher. É verdadeiro milagre dois jovens iniciarem uma vida a dois e vencerem os desafios que essa comporta. Afinal, estamos no mundo do bem-estar, onde os conflitos não são resolvidos, mas anestesiados: Prozac para depressão, Lexotan para ansiedade, Dormonid para ansiedade, Antak para gastrites e úlceras do stress, e mais ginástica, natação, spa, massagem, ioga etc, tudo para não olhar de frente os problemas. (Evidente que tudo isso pode ser necessário, pois há doenças provindas de nosso organismo debilitado).
O egoísmo e o narcisismo (olhar apenas o próprio interesse) inventam fugas aparentemente modernas: casamento com casas separadas, casamento de experiência, casamento múltiplo (o homem aceita que a esposa tenha casos e vice-versa), swing (troca de casais), o amor-livre, deixando de lado um compromisso estável, e muito mais. Tudo isso para que se evite o desafio do amor que é inseparável da doação, do diálogo, da fidelidade, perdão, paciência, auto-ajuda.
Quando se sabe o que se quer – o homem responsabilizar-se pela felicidade da mulher e a mulher se consagrar à realização do homem – buscam-se caminhos próprios e não se medem os sacrifícios. Quando se pensa apenas em si, o casamento é realmente inútil e prejudicial: não foi feito para egoístas.
Voltemos aos nossos "instrumentos". A tesoura serve para cortar tudo o que impede a boa convivência: olhar apenas os defeitos, fixar-se nos erros, nas exigências exageradas ou impossíveis, recordar problemas do passado, alterar a voz para vencer "no grito", fazer-se de vítima, de sofredor(a). Cortar as dependências familiares (minha mãe era diferente, meu pai resolvia assim, minha mãezinha cozinhava melhor), aparar as diferenças: há coisas do passado que devemos conservar e muitos supérfluos de que devemos nos livrar. Ninguém pode viver sempre dizendo "eu aprendi desse jeito".
A agulha e a linha devem servir para costurar os corações, fazer pontos que impeçam de se rasgar o tecido do amor, cerzir as costuras enfraquecidas por desavenças, experiências dolorosas. Ajudam como a agulha e a linha do médico, necessárias após uma cirurgia. Certamente a agulha, quando espeta, provoca sangramento, dor, mas dá pontos que garantem a união do tecido cortado para extirpar o tumor. Se a tesoura corta o que separa, a linha e a agulha costuram tudo o que une, favorece a união e a fidelidade matrimonial, formando o tecido de um só coração e uma só alma.
Pe. José Artulino Besen