"Poderíamos aqui meditar sobre como seria saudável também para a nossa sociedade atual se num dia as famílias permanecessem juntas, tornassem o lar como casa e como realização da comunhão no repouso de Deus" (Papa Bento XVI, Citação do livro Jesus de Nazaré, Trad. José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ, São Paulo: Ed. Planeta, 2007, p. 106)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

“Amoris laetitia”: a beleza da família, de acordo com Francisco

Publicada hoje a Exortação apostólica pós-sinodal do Papa, que apresenta as reflexões dos dois Sínodos de 2014 e 2015

A Amoris Laetitia contém toda a beleza e a complexidade da família, também nos seus detalhes mais cinzas, sendo assim uma monumental Exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco que marca a conclusão do não fácil caminho de reflexão realizado nas duas assembleias dos bispos do mundo.
Nove capítulos, mais de 300 parágrafos, 260 páginas, cerca de dois anos para elaborá-la: no texto altamente esperado, publicado hoje, mas que tem a data não aleatória de 19 de Março, Solenidade de São José, ecoa os resultados dos relatórios finais dos Sínodos 2014 e 2015, bem como os documentos e os ensinamentos de seus antecessores: João Paulo II, em particular, com a sua Familiaris Consortio, Papa Paulo VI com a histórica Humanae Vitae, o Papa Bento XVI com a Deus caritas est.
Há também algumas passagens fortes das catequeses sobre a família do próprio Papa Francisco durante as Audiências das Quartas-Feiras, preparatórias para acolher este documento que já promete ser como uma das obras-primas do seu magistério. Não faltam as contribuições dos fieis e das várias Conferências Episcopais do mundo, do Quênia, como da Austrália ou da Coreia e as citações de personalidades significativas como Martin Luther King, Erich Fromm, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, ou até mesmo do filme A Festa de Babette com o qual o Papa explica o conceito de “gratuidade”.
Tudo para demonstrar que para falar de família “não existem simples receitas”, mas é necessário ampliar o olhar e adotar um discernimento que, na medida do possível, reflita cada caso. Porque, escreve o Papa, “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas com intervenções do magistério”, mas principalmente com o amor. A alegria do amor.
Abaixo está um resumo dos pontos-chaves da Exortação Apostólica do Santo Padre.
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Premissa
A Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um «precioso poliedro» (AL 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que «nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto,“as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser «globalizado».
Mas sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas» (AL 2).
Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”
Enunciadas estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia «aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares» (AL 8) e a partir deste dado pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus «não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho» (AL 22).
Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes na terra» (AL 6), bebendo com abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodo se enfrentando numerosos desafios, desde o fenômeno migratório à negação ideológica da diferença de sexo («ideologia de gênero»); da cultura do provisório à mentalidade anti-natalidade e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência para com as mulheres. O Papa insiste no carácter concreto, que é um elemento fundamental da Exortação. E é este carácter concreto e realista que estabelece uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e «ideologias».
Citando a Familiaris consortio, Francisco afirma que «é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família”» (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa nota que o individualismo exacerbado torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da situação: «Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais» (AL 34).
A humildade do realismo ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização». Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça» (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: «Somos chamados aformar as consciências, não a pretender substituí-las» (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas «não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera» (AL 38).
Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, daHumanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.
O olhar é amplo e inclui também as «situações imperfeitas». Com efeito, lemos: «“O discernimento da presença das semina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem também as sombras» (AL 77). A reflexão inclui ainda as «famílias feridas», a propósito das quais o Papa afirma – citando a Relatio finalis do Sínodo de 2015 —«é preciso lembrar sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza adoutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações,e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).
Capítulo quarto: “O amor no matrimónio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1 Cor 13, 4-7. O capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em termos absolutamente concretos. Surpreende-nos a capacidade de introspeção psicológica evidenciada por esta exegese. O aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges – positivas e negativas – e à dimensão erótica do amor.Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.
À sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: «não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”» (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa insiste de modo enérgico e firme no facto de que «na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo» (AL 123) precisamente no íntimo daquela «combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres» (Al 126) que é de facto o matrimônio.
O capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da «transformação do amor» uma vez que «o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha» (AL 163). A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade». «Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade» (AL 163).
Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.
Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”
No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que «os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias» (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro «pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados» (AL 202).
Em seguida, o Papa desenvolve o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração» (AL 232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva retardada (cf. AL 239).
Além disso, fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: «O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo» (AL 246). Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A parte final do capítulo, «quando a morte crava o seu aguilhão», é de grande valor pastoral, tocando o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.
Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e sobretudo a atenção à gradualidade e aos pequenos passos que «possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Há um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental em que Francisco afirma com clareza que «a obsessão (…) não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (…). Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» (AL 261).
A secção dedicada à educação sexual é notável, e intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber «se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade». A educação sexual deve ser realizada«no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua» (AL 280). É feita uma advertência em relação à expressão «sexo seguro», pois transmite«uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento» (AL 283).
Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a «lógica da misericórdia pastoral».
O oitavo capítulo é muito delicado. Na sua leitura deve recordar-se que «muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha» (AL 291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e acrescenta-se que «algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica». Por conseguinte, «a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio» (AL 292).
No que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa observa: «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 296). E continua: «Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”»(AL 297). E ainda: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral» (AL 298).
Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…).Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos» (AL 299).
Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos» (AL 300). O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja «sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes» no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: «É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma» (AL 304).
Na última secção do capítulo, «A lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com vigor: «A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônio se assim evitar as ruturas» (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312). Acerca da «lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco afirma com força: «Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho» (AL 311).
Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Diz-se com clareza que «aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística» (AL 316). Tudo, «os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição» (AL 317). Fala-se de seguida da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, a espiritualidade «da solicitude, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (AL 322), escreve o Papa. «É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele» (AL 323).
No parágrafo conclusivo,o Papa afirma: «Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida» (AL 325).
A Exortação apostólica conclui-se com uma Oração à Sagrada Família (AL 325).
*  *  *
Como já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica Amoris laetitia pretende reafirmar com força não o «ideal» da família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala de fato a linguagem da experiência e da esperança.
Fonte: Zenit

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Casal carmelita secular se alegra com entrada do filho no Postulantado

O casal carmelita secular Alencastro Gonzaga da Silveira e Denise Maria de Oliveira e Silveira, membro da Comunidade Santa Teresa de Jesus, de Belo Horizonte-MG. enviou mensagem partilhando a alegria da entrada do filho FELIPE GONZAGA DE OLIVEIRA E SILVEIRA no Postulantado da Ordem dos Carmelitas Descalços da Província São José, em Brasília, no dia 11/02/2016.



NOSSO FILHO FELIPE INGRESSA NO CARMELO

Nosso filho Felipe viajou hoje, dia 11/02/2016 para o Carmelo de Brasília, iniciando assim sua entrada e experiência na sagrada Ordem do Carmelo de Nossa Santa Madre Teresa de Jesus. Nosso coração está alegre, com saudades, e chorando pela ausência física. No dia a dia teremos de aprender a conviver com esta nova realidade na família. Que Deus na sua misericórdia e bondade abençoe e o guarde junto de nossos irmãos do Carmelo. A benção de Deus esteja também com todos que estão entrando junto com ele nestes dias, lembrando de modo especial o Wilian e Paulo que ficaram hospedados em nossa casa. Pedimos orações de todos os frades, monjas e irmãos da OCDS.

Alencastro e Denize (pais),  Mateus e Tiago (irmãos do Felipe)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A BOA NOVA DA FAMÍLIA

A Igreja tem um modelo próprio de família. Proclama-a como boa nova para a humanidade. E o faz por duas razões:
Primeiro, porque se trata de uma obra de Deus. De fato, o ser humano não foi criado por Deus como indivíduo, mas como casal. Criou-o homem e mulher, declarando não ser bom o homem viver só.
familia-boanova
Segundo, porque a família é fonte de graças e de vida. Está baseada num sacramento, sinal eficaz e permanente das graças divinas, não só para garantir sua unidade e indissolubilidade, mas também para proporcionar felicidade a seus membros e amparar a vida que nela se gera.
Podemos resumir esta boa nova no amor. Envolve aconchego, carinho e convivência. Vem por isso definida como Igreja doméstica. São João garante que quem ama conhece Deus, o que equivale a dizer que faz uma experiência de Deus e, consequentemente, tem junto de si, uma presença contínua para o amparo, o incentivo e a felicidade. Jesus prometeu que estará presente onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome. Por isso, antes de instaurarem sua convivência matrimonial, que se deseja estável e consistente, o casal cristão vai à Igreja para buscar esta presença inefável e carinhosa.
 
"A boa nova da família se concretiza no relacionamento familiar. O ser humano não é indivíduo, mas família". 
A boa nova da família se concretiza no relacionamento familiar. O ser humano não é indivíduo, mas família. Retrata e concretiza quatro relações fundamentais, simbolizando o mistério da SS. Trindade: conjugal, paterna, filial e fraterna, concretizadas nas pessoas queridas dos esposos, dos pais, dos filhos e dos irmãos. É neste aconchego que a vida humana se desenvolve e realiza. Pessoa quer dizer relação. Quanto mais alguém se relaciona, mais pessoa é e, inversamente, quanto mais se fecha sobre si mesmo, mais indivíduo e menos pessoa se torna.
A Igreja proclama a boa nova da família. O Papa João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consotio, garante que o futuro da humanidade passa pela família. Evidentemente trata-se do modelo da família que a Igreja propõe, baseada na Revelação divina. Por isso o Papa Bento XVI declara este modelo de família patrimônio da humanidade. Significa que deve se investir nela para preservá-la e promovê-la.
A promoção da família envolve quatro atitudes básicas: Primeiro é preciso amá-la. É o que temos de mais precioso em nossa vida. Merece nosso tempo e dedicação. Segundo, o dever anunciar esta boa nova à humanidade como modo sublime de convivência e de realização humana. Terceiro, a preparação para ela, para que produza os devidos frutos de convivência e de fecundidade. Quarto, o amparo às famílias em crise, para que recuperem seu ideal original e voltem ao primeiro amor, realizem seu primeiro sonho em toda a sua profundidade e se relacionem de modo cada vez mais profundo e amoroso, no plano do amor conjugal, da paternidade responsável e da fraternidade acolhedora. 
Creio na famíliaCreio, Senhor, na família:Tal como saiu de vosso projeto criador,Fundada sobre a rocha do amor eterno e fecundo.Vós a escolhestes como vossa morada entre nós,Vós a quisestes como berço da vida.Creio, Senhor na família:Também quando em nossas casas entra a sombra da Cruz,Quando o amor perde seu fascínio originário,Quando tudo se torna árduo e penoso.Creio, Senhor, na família:Como sinal luminoso de esperança em meio à crise de nosso tempo;Como fonte de amor e de vida.Como contrapeso das muitas agressões do egoísmo e da morte.Creio, Senhor, na família:Como meu caminho para a realização humana plena,Como minha vocação à santidade,Como minha missão para transformar o mundoÀ imagem de vosso Reino, Amém.(E. Masseroni)
Dom Dadeus Grings 
Arcebispo Emérito de Porto Alegre
Fonte: Arquidiocese de Porto Alegre.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Papa: “Não se pode viver sem nos perdoarmos”

Texto completo da catequese do Papa na Audiência Geral

Nesta quarta-feira, 4 de novembro, Francisco destacou que a família é um grande ginásio de treinamento ao dom e ao perdão recíproco sem o qual nenhum amor pode durar muito

Apresentamos o texto completo da catequese do Papa na Audiência Geral desta quarta-feira, 4 de novembro:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A Assembleia do Sínodo dos Bispos, que se concluiu há pouco, refletiu a fundo a vocação e a missão da família na vida da Igreja e da sociedade contemporânea. Foi um evento de graça. Ao término, os padres sinodais me entregaram o texto de suas conclusões. Quis que esse texto fosse publicado para que todos participassem do trabalho em que nos viram empenhados juntos por dois anos. Esse não é o momento de examinar tais conclusões, sobre as quais devo eu mesmo meditar.
Nesse meio de tempo, porém, a vida não para, em particular a vida das famílias não para! Vocês, queridas famílias, estão sempre em caminho. E continuamente escrevem já nas páginas da vida concreta a beleza do Evangelho da família. Em um mundo que às vezes se torna árido de vida e de amor, a cada dia vocês falam do grande dom que são o matrimônio e a família.
Hoje gostaria de destacar esse aspecto: que a família é um grande ginásio de treinamento ao dom e ao perdão recíproco sem o qual nenhum amor pode durar muito. Sem se doar e sem se perdoar o amor não permanece. Na oração que Ele mesmo nos ensinou – isso é, o Pai Nosso – Jesus nos faz pedir ao Pai: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. E no fim comenta: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6, 12. 14-15). Não se pode viver sem se perdoar, ou ao menos não se pode viver bem, especialmente em família. Todo dia cometemos erros uns com os outros. Devemos levar em conta esses erros, devidos à nossa fragilidade e ao nosso egoísmo. O que porém é pedido a nós é curar logo as feridas que nos fazem, tecer de novo imediatamente os fios que se rompem na família. Se esperamos muito, tudo se torna mais difícil. E há um segredo simples para curar as feridas e para rejeitar as acusações. É isso: não deixar terminar o dia sem pedir desculpa, sem fazer as pazes entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs…entre nora e sogra! Se aprendemos a pedir desculpas logo e a nos doarmos o recíproco perdão, curamos as feridas, o matrimônio se fortalece e a família se torna uma casa sempre mais sólida, que resiste aos choques das nossas pequenas e grandes maldades. E por isso não é necessário fazer um grande discurso, mas é suficiente um carinho: um carinho e terminou tudo e se recomeça. Mas não terminar o dia em guerra!
Se aprendemos a viver assim em família, fazemos também fora, em qualquer lugar que estamos. É fácil ser cético sobre isso. Muitos – também entre cristãos – pensam que seja um exagero. Diz-se: sim, são belas palavras, mas é impossível colocá-las em prática. Mas graças a Deus não é assim. De fato, é justamente recebendo o perdão de Deus que, por sua vez, somos capazes de dar o perdão aos outros. Por isso Jesus nos faz repetir essas palavras que recitamos na oração do Pai Nosso, isso é, todos os dias. E é indispensável que, em uma sociedade às vezes cruel, haja lugares como a família, onde aprender a perdoar uns aos outros.
O Sínodo reavivou a nossa esperança também sobre isso: faz parte da vocação e da missão da família a capacidade de perdoar e de se perdoar. A prática do perdão não somente salva as famílias da divisão, mas as torna capazes de ajudar a sociedade a ser menos má e menos cruel. Sim, todo gesto de perdão repara a casa das rachaduras e fortalece seus muros. A Igreja, queridas famílias, está sempre próxima a vocês para ajudar a construir a vossa casa sobre a rocha da qual falou Jesus. E não esqueçamos essas palavras que precedem imediatamente a parábola da casa: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”. E acrescenta: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: nunca vos conheci” (cfr Mt 7, 21-23). É uma palavra forte, não há dúvida, que o objetivo é nos abalar e nos chamar à conversão.
Asseguro-vos, queridas famílias, que se forem capazes de caminhar sempre mais decididamente no caminho das Bem-Aventuranças, aprendendo e ensinando a se perdoarem reciprocamente, em toda a grande família da Igreja crescerá a capacidade de dar testemunho da força renovadora do perdão de Deus. Do contrário, faremos pregações belíssimas e talvez vamos expulsar qualquer demônio, mas no fim o Senhor não nos reconhecerá como os seus discípulos, porque não tivemos a capacidade de perdoar e de nos fazermos perdoar pelos outros!
Realmente as famílias cristãs podem fazer muito pela sociedade de hoje e também pela Igreja. Por isso desejo que, no Jubileu da Misericórdia, as famílias redescubram o tesouro do perdão recíproco. Rezemos para que as famílias sejam sempre mais capazes de viver e de construir caminhos concretos de reconciliação, onde ninguém se sinta abandonado ao peso dos seus débitos.
Com essa intenção, digamos juntos: “Pai nosso, perdoai os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
(Canção Nova)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Relatório Final do Sínodo sobre a família já é um documento de orientação para toda a Igreja?

No que concerne a situação de alguns de nossos irmãos e irmãs divorciados recasados, com quem caminhamos e conversamos pelo Brasil afora, é necessário redobrar a prudência no que concerne as interpretações do texto publicado, pois o texto sequer menciona o acesso à Eucaristia e ao Sacramento da Confissão.

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Roma,  (ZENIT.org) Pe. Rafael Fornasier 

O Papa Francisco, em seu discurso de conclusão do Sínodo dos Bispos sobre “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo” afirmou que “certamente não significa que esgotamos todos os temas inerentes à família” e que não “encontramos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família” na atualidade, mas que, com coragem, dedicação e sem medo de afrontar os desafios postos às famílias e na família, “procuramos iluminá-los com a luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja, infundindo neles a alegria da esperança”, sem cair em repetições simplistas.
Com efeito, o Relatório Final do Sínodo foi entregue ao Papa Francisco, como reza o Artigo 41 do Regulamento do Sínodo dos Bispos (Ordo Synodi Episcoporum). Segundo as explicações do próprio regulamento, não há uma regra estabelecida de antemão sobre a elaboração de um documento final do Sínodo. Fato é que, após várias assembleias sinodais, os últimos papas publicaram um documento retomando ou levando em conta o fruto do trabalho do Sínodo. Haja vista que os bispos, ao entregar o Relatório Final da assembleia, fizeram um pedido ao papa para que ele publicasse um documento, é de se esperar que isso aconteça nos próximos meses.
Assim sendo, o texto que foi publicado no fim de semana passado não é um documento normativo nem definitivo. Virá a sê-lo se o papa assim o quiser. Mas poderá também passar por modificações por parte do papa. Por isso, é temerário já agora tirar orientações bem precisas em nível prático para a ação pastoral da Igreja, embora não nos seja impedido de começar – ou continuar – a refletir sobre isso.
No que concerne a situação de alguns de nossos irmãos e irmãs divorciados recasados, com quem caminhamos e conversamos pelo Brasil afora, é necessário redobrar a prudência no que concerne as interpretações do texto publicado, pois o texto sequer menciona o acesso à Eucaristia e ao Sacramento da Confissão.
O título no qual se aborda o assunto fala de “discernimento e integração”, deixando, propositadamente, a questão aberta e a ser cada vez mais discernida, com misericórdia e verdade, não só pelas pessoas implicadas, mas também por toda comunidade eclesial, inclusive levando em conta aspectos culturais, como também mencionado pelo Papa Francisco no seu discurso final. A respeito do acesso à Eucaristia, alguns comentários observaram que o texto não diz nem que “sim” nem que “não”. Isso também é válido para aquelas formas de impedimentos hoje existentes na prática eclesial. Tal responta obliqua e não direta do texto faz-nos voltar ao que o papa disse no discurso final, ou seja, de que o sínodo não ofereceu soluções exaustivas a todas as situações complexas, pois estas são múltiplas e variadas. Anunciar aos quatro cantos um acesso ao Sacramento da Eucaristia para todos os que se encontram nesta situação, não somente vai além do que afirma o texto conclusivo do sínodo – repitamo-lo: ainda não normativo nem definitivo –  mas também não respeita a complexidade da história de vidas envolvidas num divórcio e suas consequências temporais, que, quer se queira ou não, toca a noção de comunhão no sentido mais amplo (comunhão eclesial, eucarística, mas também conjugal e familiar), que pode ter sido, em certos casos, gravemente rompida.
Ainda que o Papa Francisco venha a decidir sobre essa questão, a proposta, segundo as sugestões dos bispos representares de todas as partes do mundo, não será a panaceia para dar fim aos problemas dos divorciados recasados, mas será aplicada caso a caso, como sugerido pelo Cardeal W. Kasper desde o início dessa discussão – o que não deixará de suscitar dificuldades e incompreensões em nossas comunidades, diga-se de passagem...
Deixando de lado todas essas especulações – que interessam muito aos meios de comunicação desinteressados da vida real das pessoas! – o importante é não reduzir toda a riqueza dos trabalhos do sínodo nestes dois últimos anos ao “pode ou não pode”, pois o acompanhamento que visa não só a integração de diversas situações, mas também a preparação ao matrimônio, através da transmissão do Evangelho da família, a vida pós-matrimonial, a transmissão e educação dos filhos, a formação para a missão eclesial e social da família, requer conversão pastoral e pessoal, de todos nós, disponibilidade de tempo para a escuta e o serviço, coragem e ousadia para intervir, também com misericórdia, junto às famílias quando são assoladas por mentiras em relação à essência do amor, da liberdade, da fidelidade, da responsabilidade, da abertura à vida para se tentar evitar e superar as crises, e assim permitir que a família continue sendo o maior tesouro da humanidade!

Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/o-relatorio-final-do-sinodo-sobre-a-familia-ja-e-um-documento-de-orientacao-para-toda-a-greja?utm_campaign=diarioportughtml&utm


domingo, 25 de outubro de 2015


Sínodo 2015: Papa fala em «novos horizontes» para a Igreja, sem linguagem condenatória



Foto: Ricardo Perna


Agência Ecclesia - Notícias 
 

Francisco elogia trabalhos que fugiram da «fácil repetição» e critica teses conspirativas

Octávio Carmo, enviado da Agência ECCLESIA ao Vaticano
Cidade do Vaticano, 25 out 2015 (Ecclesia) – O Papa encerrou hoje no Vaticano os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família e disse que as últimas três semanas abriram “novos horizontes” na vida da Igreja, que recusam uma linguagem condenatória.
“Procuramos abrir os horizontes para superar qualquer hermenêutica conspiratória ou perspetiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível”, declarou Francisco, numa intervenção à porta fechada, posteriormente publicada pela sala de imprensa da Santa Sé.
Perante 265 participantes com direito a voto, entre eles D. Manuel Clemente e D. Antonino Dias, de Portugal, o Papa declarou que “o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus”.
“A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”, precisou.
Francisco apresentou uma reflexão sobre o que deve significar para a Igreja “encerrar este Sínodo dedicado à família”, que desde 2013 incluiu questionários às comunidades católicas, uma reunião extraordinária de bispos (2014) e a 14ª assembleia geral ordinária, que se conclui oficialmente este domingo, com a Missa na Basílica de São Pedro.
O fim deste percurso, afirmou o Papa, não significa que se esgotaram todos os temas, mas que estes foram debatidos “a luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja”, sem “cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse”, “sem medo e sem esconder a cabeça na areia”.
“Seguramente não significa que encontramos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família”, admitiu.
Francisco falou da reunião de bispos e outros representantes das comunidades católicas como uma prova da “vitalidade da Igreja Católica”, num “período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade”.
O Sínodo desafia a Igreja e a sociedade a compreender a importância da “instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher”, fundado sobre “a unidade e a indissolubilidade”.



Sínodo 2015: Valores do matrimónio e da família são resposta ao individualismo

Foto: Ricardo Perna


Agência Ecclesia - Notícia
 

Relatório final sublinha a importância da relação homem-mulher e da abertura à vida

Octávio Carmo, enviado da Agência ECCLESIA ao Vaticano

Cidade do Vaticano, 25 out 2015 (Ecclesia) – O relatório final do Sínodo dos Bispos, que se concluiu hoje no Vaticano, apresenta os “grandes valores” do matrimónio e da família cristã como respostas aos anseios da humanidade num tempo de “individualismo” e “hedonismo”.
“A família baseada sobre o matrimónio do homem e da mulher é o lugar magnífico e insubstituível do amor pessoal que transmite a vida”, refere o documento conclusivo, com 94 pontos, entregue ao Papa.
O texto parte de uma análise do contexto cultural e religioso em que vivem as famílias, face a uma mudança “antropológica” em que surge o desafio da ideologia do género, que “nega a diferença e a reciprocidade natural do homem e da mulher”.
O relatório analisa em seguida as situações dos vários elementos dos agregados familiares, com atenção aos idosos e criança, aos viúvos e aos solteiros.
Depois de três semanas de debate com representares dos episcopados católicos nos cinco continentes, o documento aponta alguns “desafios particulares”, como a poligamia, o casamento entre católicos e fiéis de outras confissões cristãs ou religiões, a secularização ou a “desconfiança” dos jovens em relação ao matrimónio.
Nesse sentido, propõe-se uma formação ao “dom de si”, com incidência nas preocupações sobre uma “sexualidade sem limites”.
A família é apresentada como o “porto seguro”, a “célula fundamental” da sociedade numa época de fragmentação.
Tal como tinha sido pedido pelos participantes, este relatório inclui várias passagens dedicadas ao ensinamento da Igreja Católica sobre a família e referências à Bíblia, particularmente às palavras e atos de Jesus.
“A revolução dos afetos que Jesus introduz na família humana constitui um chamamento radical à fraternidade universal”, pode ler-se.
Depois de ter assinalado o ensinamento recente sobre o tema, desde o Concílio Vaticano II (1962-1965) ao pontificado do Papa Francisco, o documento conclusivo centra-se na questão da “indissolubilidade”, a qual “corresponde ao desejo profundo de amor recíproco e duradouro” que Deus “colocou no coração humano”.
Sublinhando que qualquer “rutura” deste vínculo é “contra a vontade de Deus”, o texto alude, no entanto, às “fragilidades” de cada pessoa, pelo que a “clareza da doutrina” não pode levar a “julgamentos” que não tenham em consideração a “complexidade das diversas situações”.
“A Igreja parte das situações concretas das famílias de hoje, todas necessitadas de misericórdia, a começar pelas que mais sofrem”, referem os participantes no Sínodo.
Os responsáveis manifestam a intenção de acompanhar “cada” família para que possa descobrir o melhor caminho para “superar as dificuldades”.
Aos católicos é lembrada a “responsabilidade” de ter filhos, face a uma mentalidade “hostil à vida”, rejeitando qualquer iniciativa estatal que favoreça “a contraceção, a esterilização ou mesmo o aborto”.
O documento limita as referências à homossexualidade ao pedido de um “acompanhamento das famílias” em que vivem pessoas com “tendência homossexual” e reafirma a oposição da Igreja à equiparação da união entre pessoas do mesmo sexo ao matrimónio.
O relatório concluiu-se com um pedido ao Papa para que considere a “oportunidade” de redigir um documento sobre estes temas.
Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/sinodo-2015-valores-do-matrimonio-e-da-familia-sao-resposta-ao-individualismo/



NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS - CARMELO DE TRINDADE 



NONO DIA DA NOVENA DE SANTA TERESA DE JESUS CARMELO DE TRINDADE (8)



Homilia do dia 06/10/15 -  Novena de Santa Teresa de Jesus.

A vivência das virtudes” – A importância da família na prática das virtudes em Santa Teresa.

Como Santa Teresa começou a despertar a sua alma na infância para as coisas virtuosas e de quanto contribuiu para isso os pais serem virtuosos.
No Livro da Vida (um livro autobiográfico que Santa Teresa escreveu), no primeiro comentário que ela faz sobre seu pai, ressalta o quanto ele a incentivava a ler bons livros. Lembramos que naquela época (séc. XVI) era bastante comum que as mulheres fossem analfabetas, mesmo as de famílias ricas, que eram educadas apenas para serem boas esposas e mães.
Em seguida, Teresa sublinha a bondade de seu pai para com os menos favorecidos, dizendo: “meu pai era um homem muito caridoso para com os pobres e tinha muita compaixão para com os enfermos e até mesmo com os criados; tanto que jamais se pôde conseguir que tivesse escravos, porque lhes tinha uma grande compaixão (V1,1).   “Certa vez uma escrava do irmão de meu pai estava em nossa casa e ele a tratava como a um de seus filhos”.
Estamos falando de algo que ocorreu no séc. XVI e ]e bom lembrarmos que a escravidão no Brasil perdurou até fins do séc.XIX.
Dom Alonso, pai de Santa Teresa, trabalhava também como voluntário em um hospital de indigentes, situado próximo à sua casa.
Embora tivesse em sua família muitos bons exemplos de piedade e compaixão para com os outros e, desde pequena fosse bastante virtuosa, a verdade é que Teresa não herdou espontaneamente o modo de ser de seus pais. Ela mesma confessa no Livro da Relações (R2,4): “Eu não tinha piedade natural”. Em outras palavras, foi algo que ela teve que aprender e conquistar lentamente.  Podemos dizer que foi sua relação com Jesus Cristo e o seu caminho de seguimento a ele que fizeram seu coração se abrir a esta realidade e a aproximar-se desta exigência: amar os pequeninos, amar os pobres.
Quando aconteceu esta conversão?
Evidentemente, conversão é um processo e não é algo mágico que acontece de uma hora para outra. No entanto, podemos dizer que existem momentos pontuais, especiais, carregados de densidade experiencial que marcam  este processo de conversão. No caso de Teresa, ela situa-o em sua experiência mística diante do Cristo muito chagado (Vida 9,1) . Ali ela tomou consciência verdadeira da solidariedade de Jesus para com todos. Ali também percebeu o quanto era “mal agradecida” por aquelas chagas”. Algo de muito especial, profundo e fundamental desencadeou-se no íntimo de Teresa tanto que a aproximou dos pobres e a fez querer viver como os pobres: “Quando voltei  à oração e olhei o Cristo tão pobre e despojado de suas vestes, não suportava a ideia de riquezas. Eu lhe suplicava com lágrimas que encaminhasse as coisas na minha vida de maneira que eu me visse tão pobre quanto Ele (Vida 35,3)
Sem dúvida, o caráter de Teresa foi moldado pela boa educação que recebeu de seus pais e o ambiente familiar foi igualmente decisivo para que ela crescesse com um coração bom (a tão exaltada “magnanimidade de coração vasta como a areia da praia do mar”, que frades e monjas carmelitas rezam na antífona teresiana são fruto de todas estas influências).
Como era a família de Santa Teresa?
           No início do Livro da Vida, Santa Teresa faz uma apresentação da família em que nasceu.  Refere-se ao seu pai como um homem de cultura, “afeiçoado a ler bons livros”. O gosto pela leitura, pelos estudos e pelas letras acompanhará Teresa por toda sua vida. Tanto que ela sempre preferiu os padres “letrados” para que fossem confessores das monjas do que os “santos iletrados”. Teresa tinha um profundo desejo de conhecer melhor “os grandes segredos da criaturas” (4Moradas 2,2), o mundo, as pessoas, a vida e a teologia (como ciência, conhecimento de Deus).  (***)
De sua mãe, Dona Beatriz, Teresa diz que era uma mulher muito piedosa. Dona Beatriz morreu muito cedo (tinha apenas 34 anos) deixando Teresa órfã por volta de seus treze ou quatorze anos de idade (ela mesma não lembrava com exatidão a data). Dela herdou a devoção à Virgem Maria:  “Minha mãe tinha o cuidado de fazer-nos rezar e ter devoção por Nossa Senhora e por alguns santos, começou a despertar-me com a idade de mais ou menos seis ou sete anos”. (V1,1) “Recordo-me de que quando minha mãe morreu, eu tinha doze anos, ou um pouco menos. Quando comecei a perceber o que havia perdido, ia aflita a uma imagem de Nossa senhora e suplicava-lhe, com muitas lágrimas, que fosse ela a minha mãe”. (V1,7)
Teresa tinha onze irmãos: nove homens e duas mulheres (três com ela). Dentre eles, parece que a santa tinha uma especial predileção pelo irmão Rodrigo, companheiro de aventuras espirituais na infância. Rodrigo era o irmão que o precedia em idade. (Teresa era a quinta ou sexta filha). Todos os irmãos (homens) partiram para terras distantes. A relação de Santa Teresa com seus irmãos nem sempre era algo fácil. Teve que encarregar-se da educação da irmã mais nova (Joana). Quando o seu pai morreu teve que enfrentar o desentendimento entre as irmãs por causa da herança. Intermediou para que o irmão Lourenço tivesse paciência com as excentricidades e histeria do mais novo, Pedro. Uma família normal como todas as outras, com suas virtudes e problemas…
Santa Teresa, já em sua época mostrava-se preocupada com a situação das famílias em geral: “O mundo vai de tal maneira que, se o pai tiver uma condição inferior ao filho, este não se julga honrado em reconhecê-lo como pai” (Caminho 27,5)

Frei Marcos Matsubara